O pesquisador britânico propõe uma mudança profunda na forma como as empresas entendem seu papel no mundo: não basta reduzir impactos; é preciso criar as condições para que pessoas, comunidades e ecossistemas prosperem.

Há autores que nos ajudam a organizar o que já sabemos. Outros mudam as perguntas que fazemos. Wayne Visser pertence ao segundo grupo. Como um legítimo “pracademic”, termo que ele próprio carrega para definir quem transita com o mesmo rigor entre a pesquisa acadêmica em Cambridge e a realidade nua e crua das salas de conselho das grandes corporações, Visser passou as últimas três décadas observando uma contradição incômoda: nunca se falou tanto em sustentabilidade dentro das empresas, com seus relatórios robustos e metas ESG, e, no entanto, continuamos operando sob a mesma lógica linear que gerou as nossas maiores crises.
A grande virada que a obra de Visser provoca não é um ajuste de metas, mas uma mudança de lente. Ele nos mostra que a responsabilidade social tradicional, o que ele chama de CSR 1.0, faliu por ser essencialmente periférica. Criou-se o hábito de enxergar a sustentabilidade como um departamento isolado, um puxadinho corporativo focado em filantropia, gestão de danos ou conformidade regulatória. A pergunta clássica sempre foi: “O que a empresa faz de bom além do negócio para mitigar seus impactos?”. Visser inverte o vetor. A questão agora é: “O próprio modelo de negócio é capaz de regenerar o ecossistema onde atua?”.
É aqui que a sustentabilidade encontra o seu limite conceitual e cede espaço para a regeneração: o caminho dos negócios regenerativos.
_ A pergunta já não é o que a empresa faz de bom além do negócio, mas se o próprio negócio é capaz de regenerar o ecossistema onde atua. _
Do “menos pior” ao florescimento
Por muito tempo, o teto da ambição corporativa foi o “doing less harm” (fazer menos mal): emitir menos carbono, reduzir o desperdício e mitigar o risco. Tudo isso continua sendo urgente, mas Visser argumenta que estabilizar um sistema degradado não o cura. Uma floresta não prospera apenas porque paramos de desmatá-la; ela prospera quando suas condições vitais são restauradas a ponto de ela voltar a gerar vida por conta própria.
No ambiente empresarial, a lógica é idêntica. A sustentabilidade tradicional tenta gerenciar limites e administrar a escassez. A regeneração, defendida por Visser em sua obra conceitual Thriving, busca criar as condições para o florescimento. Mudar a rota do mercado significa migrar de uma economia baseada na extração e no descarte para um ecossistema que funciona como a própria natureza: onde o conceito de resíduo inexiste porque tudo serve de insumo para o próximo ciclo. Não por acaso, seu documentário Closing the Loop tornou-se uma referência global em economia circular; ele não discute como tornar o lixo “menos ruim”, mas questiona por que aceitamos desenhar produtos que preveem o descarte.
A anatomia do florescimento (Thriving)
Para que essa transição deixe de ser um manifesto romântico e se torne estratégia pura, Visser decodifica a regeneração por meio de pilares interconectados que redesenham a cultura organizacional:
- Propósito e paixão: o lucro deixa de ser o objetivo final e assume seu papel real: o oxigênio que viabiliza a operação. O negócio passa a existir para resolver um problema real do mundo, movido por uma liderança engajada humanamente, e não apenas por obrigação métrica.
- Desempenho sistêmico: empresas regenerativas mudam o que medem. O sucesso financeiro é indissociável da saúde dos ecossistemas e do valor social gerado nas comunidades. Se a contabilidade ignora as externalidades negativas, ela está medindo uma ilusão.
- Parcerias e conexão planetária: desafios complexos como a crise climática não cabem no balanço de uma única organização. Visser desconstrói a ilusão da empresa isolada; o mercado do futuro opera em rede. O planeta deixa de ser um “stakeholder” em uma lista de prioridades para ser reconhecido como a infraestrutura que permite a existência de qualquer economia.
O líder como jardineiro
Toda essa transformação exige uma nova postura de liderança. O modelo de comando, controle e do líder-herói centralizador perde o sentido diante da complexidade sistêmica. A liderança regenerativa proposta por Visser opera por meio de uma metáfora muito mais orgânica: o líder deve agir menos como o engenheiro de uma máquina e mais como o jardineiro de um ecossistema.
O jardineiro sabe que não pode forçar uma semente a crescer puxando suas folhas; o seu papel é preparar o solo, garantir os nutrientes, podar os excessos e criar as condições ideais para que a vida se desenvolva. Transposto para o ambiente de negócios, o líder regenerativo é aquele que fomenta uma cultura de inovação orientada por propósito, estimula o pensamento sistêmico e conecta pessoas em prol de uma visão de futuro que inspira, em vez de paralisar — traços centrais de uma liderança consciente e regenerativa.
O grande legado de Wayne Visser para as marcas contemporâneas não é um chamado ao otimismo ingênuo, mas sim a uma esperança estritamente ativa e estratégica. Olhar para os dados da crise climática e social sem negar sua gravidade, mas escolher redesenhar as regras do jogo. Afinal, o futuro não será das marcas que aprenderam a causar menos impacto negativo no planeta, mas daquelas que se tornarem indispensáveis para que a vida, as pessoas e a economia voltem a prosperar.
_ O futuro não será das empresas que aprenderam apenas a reduzir impactos, mas daquelas que criarem as condições para que pessoas, comunidades e a natureza possam florescer. _
- Wayne Visser, site oficial
- Wayne Visser, perfil na Católica Porto Business School
- Thriving: The Breakthrough Movement to Regenerate Nature, Society, and the Economy (Fast Company Press, 2022)
- Sustainability News (Substack), “From Responsible to Regenerative: A Conversation with Wayne Visser on AI, Technology, and Hope”
- Resilience.org, “In the Business of ‘Thriving’ with a Cambridge Pracademic”
* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.





