Cidades que Florescem: e se o sucesso de uma cidade não coubesse no PIB?

Um relatório de Green Bay (EUA) aplica o framework de florescimento humano de Harvard a uma cidade real e mostra como PIB em alta pode esconder desigualdade de expectativa de vida, aumento de overdoses e falta de pertencimento.

Composição surrealista tridimensional com acabamento tátil. Uma mesa comunitária esculpida em madeira clara reúne pequenas figuras humanas recortadas em papel de cores e texturas diferentes; no centro da mesa, em vez de pratos, cresce um canteiro de flores feitas de tecido trançado e metal dourado — metáfora do pertencimento como infraestrutura a ser cultivada. Fios finos ligam as cadeiras umas às outras como uma rede. Um olho estilizado (identidade visual da Marcas que se Importam) integrado sutilmente à composição, discreto no centro do canteiro. Fundo texturizado preto fosco com ruído de papel, luz quente vinda de cima. Paleta de cores da marca MQSI. Canto superior direito limpo para aplicação do logo. Sem textos, letras ou tipografia na imagem.

O que estamos medindo quando dizemos que uma cidade, uma organização ou uma sociedade está indo bem? A pergunta parece simples, mas a resposta mais comum, ainda hoje, costuma vir de um número só: crescimento do PIB, faturamento, número de empregos gerados. É essa resposta que o City Flourishing Report, publicado anualmente pela organização Together Green Bay, decidiu questionar.

Green Bay é uma cidade de pouco mais de 331 mil habitantes em Wisconsin. O que ela fez de interessante foi pegar o framework do Human Flourishing Program, de Harvard, dirigido por Tyler VanderWeele, e aplicá-lo à realidade de uma região metropolitana, em um exercício de indicadores de bem-estar que vai além do PIB. Em vez de um indicador só, o modelo propõe seis dimensões: felicidade e satisfação com a vida, saúde física e mental, sentido e propósito, caráter e virtude, relações sociais próximas e estabilidade financeira. Elas são atravessadas por quatro caminhos para o florescimento: família, trabalho, educação e comunidade religiosa.

O dado que mais sustenta essa provocação é econômico. O PIB da região metropolitana de Green Bay cresceu 51,7% em dez anos, saindo de 18,6 bilhões de dólares em 2014 para 28,1 bilhões em 2024. Mesmo assim, o relatório é direto ao afirmar que ter um emprego não é sinônimo de estabilidade financeira, e que uma economia pode estar forte enquanto muitos moradores continuam sem segurança para pagar as contas do mês. Nos bairros com a maior taxa de pobreza da região, a expectativa de vida é de 69 anos. Nos bairros com a menor taxa, chega a 87. As mortes por overdose passaram de 41, em 2018, para 63, em 2023.

Há um ponto no relatório que talvez seja o mais valioso e o mais fácil de passar batido. Ao tratar do domínio de relações sociais, ele destaca a importância do pertencimento e das relações fortes para o bem-estar e para a capacidade das pessoas de atravessar mudanças. O relatório não chega a chamar isso de infraestrutura, mas a ideia convida a essa leitura. Se pertencimento influencia saúde, propósito e a capacidade de uma comunidade resistir a crises, talvez precise deixar de ser tratado como consequência espontânea da vida coletiva e passar a ser encarado como uma condição a cultivar, da mesma forma que se planejam moradia ou transporte. A pergunta que sobra para qualquer marca é direta: que tipo de pertencimento ela produz nos lugares onde atua?

A parte mais provocadora do relatório, porém, está escondida no eixo sobre trabalho. Uma pesquisa de doutorado reuniu dados de 150 respondentes cristãos da região sobre como fé e propósito aparecem em suas vidas profissionais. O resultado mostra uma distância clara entre discurso e prática: os entrevistados falam bastante sobre integridade pessoal, propósito, felicidade e saúde, mas quase nada sobre mudança organizacional, generosidade ou estratégias para lidar com a tensão entre seus valores e a lógica do negócio. É um retrato de valores que vivem no indivíduo e raramente chegam a mudar a estrutura da empresa onde ele trabalha.

A pergunta que fica é difícil de responder: de que adianta uma liderança ter valores, se eles não aparecem nas decisões e nos sistemas da organização? É uma tensão próxima daquela que atravessa a obra de Maria Brasil, autora de Marcas com Alma (confira o texto clicando aqui), ao discutir ética e autenticidade na gestão de marcas. Uma crença só ganha consistência quando aparece nas práticas, nas políticas e nas estruturas da organização.

A edição de 2026 do relatório trouxe ainda uma camada nova, feita em parceria com a Envision Greater Green Bay: em cada uma das seis dimensões, os autores passaram a projetar sinais que podem moldar a cidade nos próximos dez a quinze anos, em vez de apenas fotografar o presente. É uma mudança de postura que qualquer organização preocupada com o próprio futuro deveria observar de perto: olhar para os dados não apenas como registro do que aconteceu, mas como apoio às decisões sobre o que vem pela frente, lógica que aproxima planejamento urbano, sustentabilidade e estratégia de negócios.

Se uma cidade pode ser avaliada também pela capacidade de oferecer saúde, propósito, relações, segurança e pertencimento, a pergunta para empresas e marcas pode ser semelhante:

Fontes consultadas

Greater Green Bay City Flourishing Report, edição 2026, Together Green Bay

Together Green Bay

Envision Greater Green Bay

Human Flourishing Program, Harvard T.H. Chan School of Public Health (dirigido por Tyler VanderWeele)

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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