Um relatório de Green Bay (EUA) aplica o framework de florescimento humano de Harvard a uma cidade real e mostra como PIB em alta pode esconder desigualdade de expectativa de vida, aumento de overdoses e falta de pertencimento.

O que estamos medindo quando dizemos que uma cidade, uma organização ou uma sociedade está indo bem? A pergunta parece simples, mas a resposta mais comum, ainda hoje, costuma vir de um número só: crescimento do PIB, faturamento, número de empregos gerados. É essa resposta que o City Flourishing Report, publicado anualmente pela organização Together Green Bay, decidiu questionar.
Green Bay é uma cidade de pouco mais de 331 mil habitantes em Wisconsin. O que ela fez de interessante foi pegar o framework do Human Flourishing Program, de Harvard, dirigido por Tyler VanderWeele, e aplicá-lo à realidade de uma região metropolitana, em um exercício de indicadores de bem-estar que vai além do PIB. Em vez de um indicador só, o modelo propõe seis dimensões: felicidade e satisfação com a vida, saúde física e mental, sentido e propósito, caráter e virtude, relações sociais próximas e estabilidade financeira. Elas são atravessadas por quatro caminhos para o florescimento: família, trabalho, educação e comunidade religiosa.
O dado que mais sustenta essa provocação é econômico. O PIB da região metropolitana de Green Bay cresceu 51,7% em dez anos, saindo de 18,6 bilhões de dólares em 2014 para 28,1 bilhões em 2024. Mesmo assim, o relatório é direto ao afirmar que ter um emprego não é sinônimo de estabilidade financeira, e que uma economia pode estar forte enquanto muitos moradores continuam sem segurança para pagar as contas do mês. Nos bairros com a maior taxa de pobreza da região, a expectativa de vida é de 69 anos. Nos bairros com a menor taxa, chega a 87. As mortes por overdose passaram de 41, em 2018, para 63, em 2023.
_ Nos bairros com a maior taxa de pobreza da região, a expectativa de vida é de 69 anos. Nos bairros com a menor taxa, chega a 87. _
Há um ponto no relatório que talvez seja o mais valioso e o mais fácil de passar batido. Ao tratar do domínio de relações sociais, ele destaca a importância do pertencimento e das relações fortes para o bem-estar e para a capacidade das pessoas de atravessar mudanças. O relatório não chega a chamar isso de infraestrutura, mas a ideia convida a essa leitura. Se pertencimento influencia saúde, propósito e a capacidade de uma comunidade resistir a crises, talvez precise deixar de ser tratado como consequência espontânea da vida coletiva e passar a ser encarado como uma condição a cultivar, da mesma forma que se planejam moradia ou transporte. A pergunta que sobra para qualquer marca é direta: que tipo de pertencimento ela produz nos lugares onde atua?
A parte mais provocadora do relatório, porém, está escondida no eixo sobre trabalho. Uma pesquisa de doutorado reuniu dados de 150 respondentes cristãos da região sobre como fé e propósito aparecem em suas vidas profissionais. O resultado mostra uma distância clara entre discurso e prática: os entrevistados falam bastante sobre integridade pessoal, propósito, felicidade e saúde, mas quase nada sobre mudança organizacional, generosidade ou estratégias para lidar com a tensão entre seus valores e a lógica do negócio. É um retrato de valores que vivem no indivíduo e raramente chegam a mudar a estrutura da empresa onde ele trabalha.
A pergunta que fica é difícil de responder: de que adianta uma liderança ter valores, se eles não aparecem nas decisões e nos sistemas da organização? É uma tensão próxima daquela que atravessa a obra de Maria Brasil, autora de Marcas com Alma (confira o texto clicando aqui), ao discutir ética e autenticidade na gestão de marcas. Uma crença só ganha consistência quando aparece nas práticas, nas políticas e nas estruturas da organização.
_ De que adianta uma liderança ter valores, se eles não aparecem nas decisões e nos sistemas da organização? _
A edição de 2026 do relatório trouxe ainda uma camada nova, feita em parceria com a Envision Greater Green Bay: em cada uma das seis dimensões, os autores passaram a projetar sinais que podem moldar a cidade nos próximos dez a quinze anos, em vez de apenas fotografar o presente. É uma mudança de postura que qualquer organização preocupada com o próprio futuro deveria observar de perto: olhar para os dados não apenas como registro do que aconteceu, mas como apoio às decisões sobre o que vem pela frente, lógica que aproxima planejamento urbano, sustentabilidade e estratégia de negócios.
Se uma cidade pode ser avaliada também pela capacidade de oferecer saúde, propósito, relações, segurança e pertencimento, a pergunta para empresas e marcas pode ser semelhante:
_ Que sinais estamos acompanhando para saber se as pessoas que vivem, trabalham e se relacionam conosco estão, de fato, florescendo? _
Fontes consultadas
Greater Green Bay City Flourishing Report, edição 2026, Together Green Bay
* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.





