Taxa Interna de Retorno Social: investir em impacto é fazer a conta direito

Luciano Gurgel, novo articulista do Marcas que se Importam, propõe a TIR Social, taxa que incorpora ao retorno financeiro os custos sociais e ambientais que a sociedade deixa de pagar, e defende que considerar o impacto é fazer a conta completa do investimento.

Composição surrealista tridimensional com acabamento tátil. Uma grande calculadora esculpida em concreto claro tem, no lugar do visor, uma janela para uma paisagem viva: crianças recortadas em papel lendo sob uma árvore de argila, uma pequena ambulância de feltro e mudas brotando de um solo de areia fina. Das teclas saem pequenas setas de metal dourado que se curvam e voltam para a própria calculadora, sugerindo o retorno que volta para a sociedade. Um olho estilizado (identidade visual da Marcas que se Importam) integrado sutilmente à composição, discreto em uma das teclas. Fundo texturizado verde-escuro com aspecto de linho, luz quente vinda do alto. Paleta de cores da marca MQSI. Canto superior direito limpo para aplicação do logo. Sem textos, letras ou tipografia na imagem. Formato horizontal 1536px de largura.

Todo investidor aprende cedo a pensar em dois eixos: risco e retorno. Quanto posso ganhar? Qual o risco associado? Toda a sofisticação do mercado financeiro – modelos, ratings, taxas de ágio e deságio – existe para responder bem a essas duas perguntas.

Mas há uma terceira variável que quase sempre fica de fora da planilha, embora esteja presente em toda decisão de investimento: o impacto. E deixá-la de fora não torna a conta mais rigorosa. Torna a conta incompleta.

Este artigo defende uma ideia simples: considerar o impacto social e ambiental na gestão de investimentos não é filantropia (base do chamado investimento de impacto), nem gesto de boa vontade. É fazer a conta direito. Coisa de que o mercado financeiro sempre se orgulhou de fazer.

O custo que ninguém coloca na planilha

Problemas sociais e ambientais não desaparecem quando ninguém investe para resolvê-los. Eles se acumulam e, mais cedo ou mais tarde, alguém paga a conta. Quase sempre, esse alguém é a sociedade inteira, via carga tributária.

O jovem que não teve acesso a uma educação de qualidade vira, anos depois, demanda por programas de transferência de renda, por qualificação emergencial, por segurança pública. A doença que não foi prevenida vira internação no SUS. A área degradada vira enchente, quebra de safra, reconstrução de infraestrutura.

Nada disso aparece no fluxo de caixa de quem decidiu não investir. Mas tudo isso aparece no orçamento público, no preço dos alimentos, no custo de viver no país. É um custo real, apenas transferido no tempo e diluído entre todos.

Investir no problema antes que ele vire conta

O investimento de impacto inverte essa lógica. Em vez de esperar o problema virar despesa pública, ele aloca capital hoje em negócios que atacam a causa. Três exemplos ajudam a tornar isso concreto:

Educação: Quando investimos em um negócio de impacto em educação, estamos construindo uma força de trabalho mais preparada. Mais produtividade significa mais renda, mais arrecadação e menos dependência de políticas compensatórias. O retorno não fica só com o investidor: ele se espalha pela economia do país.

Saúde: Quando investimos em um negócio de impacto em saúde, estamos criando uma rede adicional ao sistema público. Clínicas acessíveis, telemedicina e prevenção ampliam a rede de proteção sanitária. Cada atendimento resolvido cedo é uma internação a menos lá na frente.

Reflorestamento: Quando investimos em um negócio de impacto em reflorestamento, estamos contribuindo para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Floresta em pé regula chuvas, protege nascentes e reduz o risco de eventos extremos. É proteção para o agronegócio, para as cidades e para a infraestrutura.

Em todos os casos, o investimento faz mais do que remunerar o capital. Ele contribui para a construção de uma sociedade melhor, e mais barata de manter.

O cidadão tem mais de uma dimensão

Nos últimos anos, nos acostumamos com a ideia do consumo consciente. Escolher um produto de origem rastreável, preferir uma empresa que respeita seus trabalhadores, evitar o desperdício: são decisões individuais que, somadas, mudam mercados.

O que ainda falta é estender esse raciocínio a outras dimensões do nosso comportamento.

Quando essas dimensões caminham juntas, o efeito se multiplica. O consumo consciente cria demanda por negócios que geram impacto. O investimento consciente dá a esses negócios o capital de que precisam para crescer. Um alimenta o outro.

E o benefício volta para quem fez a escolha. Um país com menos custo social e ambiental é um país mais habitável e mais barato: menos pressão sobre o orçamento público, menos impostos para cobrir problemas que poderiam ter sido evitados, mais qualidade de vida. Escolher melhor é construir um futuro melhor para si e para toda a sociedade.

A Taxa Interna de Retorno Social

O segundo ângulo é o da própria conta. Proponho aqui um conceito: a Taxa Interna de Retorno Social, ou TIR Social.

A TIR tradicional mede quanto um investimento rende considerando apenas os fluxos de caixa que chegam ao investidor. A TIR Social acrescenta à equação um elemento que hoje fica invisível: os custos futuros que a sociedade deixa de ter por causa daquele investimento.

A lógica é a seguinte. Quando aceito abrir mão de algum retorno, ou assumir um grau maior de risco, em troca de impacto, não estou simplesmente perdendo dinheiro. Estou trocando um pouco de rendimento no presente por uma economia de gastos no futuro – gastos que a sociedade teria de arcar via carga tributária.

De forma simplificada, se a TIR financeira é a taxa que zera o valor presente dos fluxos de caixa do investidor, a TIR Social é a taxa que zera o valor presente desses fluxos somados aos custos sociais e ambientais evitados:

Onde FC é o fluxo de caixa do investidor em cada período e CSE é o custo social evitado: a internação que não aconteceu, o benefício assistencial que não foi necessário, o dano climático que não se materializou.

Visto assim, um investimento com TIR financeira um pouco menor pode ter uma TIR Social muito superior à de alternativas convencionais. A diferença entre as duas taxas é justamente o valor que o investidor está entregando à sociedade – e, como cidadão e contribuinte, a si mesmo.

Medir o custo evitado não é trivial, é verdade. Mas o mercado já precifica muitas variáveis incertas, de risco de crédito a cenários macroeconômicos. A dificuldade de medir não é motivo para fingir que o valor é zero.

Uma matéria-prima que não se esgota

Há ainda um benefício adicional, talvez o mais estratégico de todos. A matéria-prima dos negócios de impacto são os problemas sociais e ambientais. E essa é uma matéria-prima que o mundo não para de produzir.

Enquanto houver desigualdade, doença evitável, déficit habitacional e degradação ambiental, haverá espaço para empreender. Em tese, temos insumo para muitos e muitos negócios de impacto – um estoque que, infelizmente, se renova todos os dias.

Isso ganha urgência diante do avanço das tecnologias exponenciais. Inteligência artificial e automação vão eliminar ou transformar boa parte das ocupações tradicionais. Muita gente vai ficar de fora – e, se nada for feito, essa exclusão será mais um custo social pago por todos.

Os negócios de impacto são parte da resposta. Educar, cuidar, reflorestar, construir moradia, acolher: são trabalhos intensivos em gente, enraizados no território, difíceis de automatizar. Cada negócio empreendido resolve dois problemas de uma vez: o que ataca diretamente e o da mão de obra que a tecnologia estará, cada vez mais, deixando para trás.

O problema é o insumo. A solução gera trabalho. Poucos setores da economia têm essa equação a seu favor – e, na conta da TIR Social, ela entra como mais uma linha de custo evitado.

Racionalidade, não caridade

O investimento de impacto ainda é visto por muitos como uma concessão: aceitar ganhar menos para fazer o bem. A TIR Social propõe outra leitura. Quem considera o impacto não está sendo menos racional que o mercado – está sendo mais completo.


Incorporar o impacto na equação de risco e retorno é, portanto, uma decisão tão racional quanto qualquer outra no mundo dos investimentos e um passo concreto rumo às finanças de impacto e a uma nova economia. A diferença é que, desta vez, a conta inclui todo mundo.

* Luciano Gurgel é economista, com longa trajetória no mercado financeiro e há mais de 10 anos atua no campo dos negócios e investimentos de impacto. É CEO da Ibirá Negócios Sociais e articulista do Mercas Que Se Importam.

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