Gigante global de tecnologia e logística amplia investimentos em transição energética enquanto vê crescer o impacto ambiental de “data centers” e inteligência artificial.

Durante anos, a economia digital foi associada à ideia de leveza. A nuvem parecia invisível, limpa, quase abstrata. Mas a expansão da inteligência artificial e da computação em nuvem vem tornando cada vez mais evidente a dimensão física da infraestrutura digital: data centers funcionando 24 horas por dia, consumo crescente de eletricidade, sistemas intensivos de refrigeração, cadeias minerais complexas e pressão cada vez maior sobre água, território e redes energéticas.
No centro dessa transformação está a Amazon. A empresa fundada em 1994 como uma livraria online deixou há muito tempo de operar apenas como varejista. Hoje, movimenta mercadorias, dados, energia e padrões de consumo em escala planetária. Sua atuação atravessa logística, publicidade, entretenimento, inteligência artificial e, sobretudo, computação em nuvem por meio da AWS (Amazon Web Services), divisão que se tornou uma das principais infraestruturas digitais do planeta.
É justamente aí que reside o núcleo do desafio climático da companhia. Ao mesmo tempo em que a Amazon lidera investimentos corporativos em energia renovável, eletrificação logística e descarbonização de cadeias globais, ela também amplia rapidamente a demanda por data centers, capacidade computacional e infraestrutura energética. O caso da empresa ajuda a desmontar uma percepção que marcou as primeiras décadas da internet:
_”A ideia de que o digital seria imaterial.”_
Quanto mais cresce a economia baseada em dados, mais concreta ela se torna. É esse o paradoxo climático que a Amazon revela com mais clareza do que qualquer outra gigante de tecnologia.
A AWS sustenta hoje milhares de empresas, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial. Mas a chamada “nuvem” depende de uma infraestrutura pesada e contínua. Data centers exigem fornecimento constante de eletricidade, sistemas redundantes, baterias, geradores, equipamentos de refrigeração e cadeias industriais intensivas em minerais e água.
O avanço da IA generativa elevou ainda mais essa pressão energética. Ferramentas baseadas em grandes modelos de linguagem exigem capacidade computacional muito superior à computação tradicional, desencadeando uma corrida global por novos centros de dados.
Pesquisas recentes mostram a dimensão dessa transformação. Um estudo publicado em 2024 por pesquisadores ligados a universidades americanas estimou que os data centers já representam mais de 4% do consumo elétrico dos Estados Unidos. O levantamento concluiu ainda que 56% da eletricidade consumida por essas estruturas no país continuava ligada a fontes fósseis, gerando mais de 105 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano.
_ Data centers já respondem por mais de 4% do consumo elétrico dos EUA — e 56% dessa energia ainda vem de fontes fósseis._
*Estudo publicado em 2024 por pesquisadores de universidades americanas
O custo energético da inteligência artificial
A expansão da inteligência artificial passou a pressionar diretamente as metas climáticas das grandes empresas de tecnologia. Reportagem do The Wall Street Journal mostrou que Amazon, Microsoft, Google e Meta enfrentam dificuldades crescentes para sustentar compromissos de neutralidade de carbono diante da explosão energética provocada pela IA. Em alguns casos, a expansão da capacidade computacional tem levado inclusive à ampliação de fontes fósseis de apoio energético.
Na Amazon, essa tensão já aparece nos números mais recentes. Depois de três anos consecutivos de queda, as emissões da companhia voltaram a crescer. No relatório de sustentabilidade divulgado em 2025 (referente ao ano de 2024), a empresa informou emissões de 68,25 milhões de toneladas métricas de CO₂ equivalente em 2024, alta de 6% em relação ao ano anterior. Entre os fatores apontados pela própria companhia estão a expansão dos data centers, a construção de infraestrutura para inteligência artificial e o consumo de combustível da operação logística.
O dado interrompe uma trajetória recente de redução e recoloca pressão sobre as metas climáticas anunciadas pela empresa desde o lançamento do Climate Pledge*, em 2019.
*O The Climate Pledge é um compromisso global cofundado em 2019 pela Amazon e pela organização Global Optimism. O principal objetivo é incentivar empresas e organizações a atingirem emissões líquidas zero de carbono (net zero) até 2040 — dez anos antes do prazo estabelecido pelo Acordo de Paris.
Quando eficiência não basta
O ponto de atenção nesse debate não está necessariamente na eficiência operacional da Amazon, mas na velocidade de expansão da sua estrutura física e energética.
A AWS afirma operar seus data centers com índice médio de eficiência energética (PUE, na sigla em inglês) de 1,15, abaixo da média da indústria. O indicador mede quanta energia é consumida além daquela usada diretamente pelos equipamentos de computação. Quanto mais próximo de 1, menor tende a ser o desperdício operacional. A empresa também destaca iniciativas voltadas à ampliação do uso de energia renovável, reutilização de peças, prolongamento da vida útil de servidores e desenvolvimento de sistemas mais eficientes de refrigeração.
Mas, os ganhos de eficiência não eliminam, por si só, o aumento absoluto da demanda energética e das emissões.
Uma análise divulgada pela União Internacional de Telecomunicações (ITU), agência ligada à ONU, mostrou que as emissões indiretas das principais empresas focadas em inteligência artificial cresceram, em média, 150% entre 2020 e 2023. Entre as gigantes analisadas, a Amazon registrou o maior aumento operacional: 182%.
O impacto não se limita ao consumo de eletricidade. Data centers também demandam água em larga escala para resfriamento, além de provocarem impactos territoriais cada vez mais discutidos por comunidades locais. Em várias regiões, projetos ligados à infraestrutura digital passaram a gerar questionamentos sobre ocupação territorial, consumo hídrico, ruído, pressão sobre redes elétricas e dependência econômica dessas estruturas.
_ A nuvem parece ter “endereço físico”._
| Sustentabilidade como infraestrutura É nesse contexto que ganha relevância o papel de Kara Hurst, principal executiva responsável pela agenda climática da Amazon. Mais do que sustentar uma narrativa institucional, Hurst passou a defender sustentabilidade como componente operacional da companhia.Em entrevistas recentes, ela reforça a ideia de integração. O objetivo, segundo a executiva, é incorporar descarbonização à própria lógica de funcionamento do negócio. Isso ajuda a explicar por que a agenda climática da empresa se concentra em logística, energia, cadeia de suprimentos e comportamento de consumo.Na visão de Kara Hurst, sustentabilidade deixou de ocupar apenas o campo reputacional para se tornar parte da infraestrutura do negócio. |
Escala como solução e problema
A escala da Amazon permite que alguns de seus movimentos tenham efeitos sistêmicos relevantes. A empresa se tornou a maior compradora corporativa de energia renovável do mundo e afirma ter alcançado equivalência energética renovável em suas operações globais sete anos antes da meta inicialmente prevista. Hoje, contabiliza centenas de projetos solares e eólicos espalhados por diferentes países.
A companhia também ajudou a acelerar o mercado de eletrificação logística. Em 2019, encomendou 100 mil vans elétricas da Rivian antes mesmo da consolidação comercial da tecnologia. O movimento criou demanda industrial em um setor que ainda operava em estágio inicial.
Outro eixo importante está na pressão exercida sobre fornecedores. Lançado em parceria com a Global Optimism, o Climate Pledge reúne atualmente centenas de empresas comprometidas com neutralidade de carbono até 2040. A influência da Amazon sobre cadeias produtivas globais transformou a agenda climática em tema cada vez mais presente em setores como logística, telecomunicações, alimentos e tecnologia.
A empresa também começou a testar formas de interferir diretamente na lógica do consumo. O selo Climate Pledge Friendly passou a destacar produtos associados a certificações ambientais reconhecidas dentro da própria plataforma. O movimento busca usar a infraestrutura algorítmica da Amazon para favorecer produtos considerados mais sustentáveis.
Os limites materiais da economia digital
O debate, porém, permanece aberto. A questão central já não é apenas tecnológica, é estrutural. A Amazon se tornou um dos maiores laboratórios corporativos de transição energética do planeta. Mas também se transformou em uma das expressões mais visíveis do dilema climático contemporâneo:
_ como reduzir emissões em uma economia baseada justamente em aceleração, escala e expansão contínua de infraestrutura? _
A empresa investe bilhões em energia renovável, logística elétrica e descarbonização de cadeias globais. Ao mesmo tempo, amplia sua demanda absoluta por eletricidade, água, minerais e capacidade computacional para sustentar o avanço da inteligência artificial e do consumo digital.
O desafio exposto pela Amazon ultrapassa a companhia. Ele ajuda a revelar uma mudança mais profunda no próprio debate ambiental. Durante muito tempo, a economia digital foi tratada como símbolo de desmaterialização. Os data centers mostram o contrário: a inteligência artificial depende de território, energia, água, mineração e infraestrutura pesada.
Mais do que ampliar a eficiência tecnológica, o desafio passou a ser outro: compreender os limites ambientais de uma economia que depende de expansão contínua de processamento, consumo e capacidade computacional. A pegada de carbono da inteligência artificial se tornou parte inseparável dessa conta.
O caso da Amazon é também um convite a repensar o que significa, na prática, uma empresa “se importar”. Não basta zerar impactos, é preciso caminhar para a regeneração, indo além da compensação numérica de carbono. E isso exige reconhecer a interdependência entre tecnologia, território, comunidades e recursos naturais: a nuvem não paira sobre o mundo, ela se enraíza nele.
Fontes consultadas
AWS Sustainable Infrastructure





