Paul Polman: o futuro pertence às marcas que têm alma

Coautor do livro Net Positive e ex-CEO global da Unilever, Paul Polman revolucionou o mercado ao provar que o propósito gera valor real. Hoje, ele atua como a principal voz do ativismo empresarial, inspirando uma nova liderança baseada na empatia, na responsabilidade total e na regeneração do ecossistema.

Crescemos aprendendo que liderar é um exercício puramente cerebral. Planilhas, metas, projeções de crescimento e a busca incessante por mitigar riscos e reduzir danos. Fomos treinados na lógica do “menos pior”. Mas quando olhamos para os desafios sistêmicos que enfrentamos hoje, da emergência climática à desigualdade profunda, fica evidente que a conta do pragmatismo frio não fecha mais. É nesse contexto que ganha força a ideia de liderança consciente, capaz de unir performance e propósito. 

Falta ar. Falta oxigênio na cultura e falta alma nos negócios.

Acompanhar a trajetória e o pensamento de Paul Polman é um convite para recalibrar essa bússola. É compreender que a verdadeira liderança não nasce no hemisfério esquerdo do cérebro, mas sim na coragem moral de sentir a dor do mundo e agir a partir dela. 

Curiosamente, a palavra coragem vem do latim “cor” – coração. Polman transformou essa etimologia em tese de gestão ao lembrar que o que passa pelo coração antes de chegar à mente tem o poder real de transformar. E é exatamente essa “métrica do coração” que define as marcas que realmente se importam.

Em minha jornada entre o jornalismo, a gestão ambiental, a facilitação de processos, a meditação e a yoga, percebo uma busca comum: a necessidade de reconexão e interdependência. Na yoga e na meditação aprendemos que nenhuma parte do corpo funciona isolada; na ecologia, entendemos que tudo é sistêmico. No ambiente corporativo, Polman traduziu essa inteligência sistêmica ao cunhar e defender globalmente o conceito de Net Positive (Líquido Positivo).

A provocação máxima que ele deixa para nós é direta e desconfortável: “O mundo está melhor porque a sua marca existe?”

Para responder a isso com honestidade, o líder precisa abraçar o que Polman chama de responsabilidade total, sem terceirizações. Se a embalagem do seu produto vira lixo no oceano ou se há desmatamento na ponta da sua cadeia de suprimentos, a responsabilidade é sua. Não basta neutralizar; é preciso regenerar. O lucro legítimo deve vir da resolução dos problemas do mundo, não da criação deles. É esse o núcleo do conceito de Net Positive: negócios que devolvem mais ao planeta e à sociedade do que retiram.

Mas sustentar essa visão exige romper com a “tirania do curto prazo”, o maior inimigo da liderança ética. Ao assumir a Unilever em 2009, Polman revolucionou o mercado ao abolir os relatórios trimestrais e convidar os acionistas focados no lucro imediato a retirarem seu dinheiro. Manter esse prumo exige uma firmeza quase meditativa, uma resiliência temporal profunda para proteger o longo prazo dos ruídos e das pressões imediatistas do mercado. E os números chancelaram a audácia: as marcas com propósito do portfólio cresceram 69% mais rápido e responderam por três quartos do crescimento da companhia. O propósito atrai o talento, e o talento move o mundo. Um exemplo concreto de como marcas com propósito geram valor real, e não apenas reputação.

Nesta era de transição, o “líder herói” e solitário dá lugar ao líder curador e arquiteto de pontes. Problemas globais não cabem no ego de nenhuma corporação. Daí a urgência das “coalizões pré-competitivas”, uma das bandeiras mais pragmáticas de Polman. Cooperar com concorrentes diretos para banir o desmatamento ou regenerar ecossistemas não é perder mercado; é garantir que continuará existindo um mercado, e um planeta, para operarmos.

Quem teve acesso à educação, à saúde e ao topo do ambiente corporativo ganhou, como diz Polman, na “loteria da vida”. Essa posição não é um privilégio para benefício próprio, mas uma convocação ao serviço. Liderar com valores é um ato de profunda humildade e humanidade. Afinal, ecoando uma das provocações mais profundas do ex-CEO, antes de sermos human doings (fazedores humanos), precisamos resgatar nossa essência como human beings (seres humanos).

O mercado do futuro pertence às marcas que entenderem que o oxigênio da sua cultura interna e a saúde do seu balanço financeiro dependem, umbilicalmente, da saúde do ecossistema que as cerca. Que tenhamos a coragem de Polman para liderar não apenas com os olhos no topo, mas com os pés no chão e o coração no comando.

Fontes consultadas

Paul Polman: https://www.paulpolman.com/about/

Paul Polman & Andrew Winston, Net Positive (excerto via The CEO Magazine) — frase “human beings, not human doings” — https://www.theceomagazine.com/business/management-leadership/net-positive-leader/

The Valuable 500 — citação sobre a “loteria da vida” — https://www.thevaluable500.com/story/paul-polman

The Positive Leadership Podcast — versão estendida da fala sobre a “loteria da vida” — https://thepositiveleadershippodcast.buzzsprout.com/1798971/episodes/10311167-becoming-a-courageous-leader-with-paul-polman-ex-unilever-ceo-and-imagine-co-founder

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