Miguel Setas: espiritualidade e evolução no debate empresarial

A partir da fala de Miguel Setas no Importa Day, uma reflexão sobre humanismo ecológico, espiritualidade e os caminhos para uma liderança comprometida com a vida. 

A compreensão de que o ser humano não está acima da natureza, mas é parte dela, me acompanha desde muito jovem. Ainda assim, Miguel Setas, em sua fala no Importa Day, iluminou algo que, para mim, permanecia difuso. Ao trazer espiritualidade e evolução para o centro de um debate empresarial ele faz um reposicionamento interessante.

Quando subiu ao palco do encontro do Marcas que se Importam, o telão exibia uma cachoeira cercada por mata nativa e a frase: “Brasil, o epicentro do novo humanismo ecológico”.

Antes de avançar, situo meu lugar de fala. Nasci e fui criada no contexto rural, sempre atenta à natureza. Na infância, lia livros sobre as estações do ano como quem busca um “código escondido”. Na adolescência, vivenciei e comecei a escrever sobre os ciclos do feminino. Na vida adulta, gestei e pari dois filhos buscando conexão com o que havia de mais natural naquele processo. Trabalhei com agricultura, acompanhei preparo de solo, plantio, colheita, armazenamento, entrega de alimentos. Aprendi na prática que nada existe isoladamente.

Interdependência é mais que um conceito teórico para mim. Vem sendo experienciado. Um princípio que se conecta diretamente à ideia de liderança consciente e economia regenerativa.

Miguel Setas é um executivo português que escolheu viver no Brasil, atua como CEO da Motiva e defende o que chama de humanismo ecológico: a ideia de que desenvolvimento não pode mais ser entendido como enfrentamento da natureza.

A lógica que nos trouxe até aqui — crescer extraindo, competir dominando — ajuda a explicar muitos dos impactos que vivemos. A alternativa proposta por ele é civilizatória: recolocar o humano dentro do sistema vivo. Essa é a base do que hoje se discute como humanismo ecológico dentro da agenda ESG.

Essa visão aparece também em seu livro Gigante pela própria natureza, no qual apresenta o Brasil como potência ecológica e cultural, não apenas pela biodiversidade, mas pela sociodiversidade, pela matriz energética renovável e pela capacidade de liderar Soluções Baseadas na Natureza.

Logo no início, o que me chamou a atenção na fala dele foi a mudança de eixo. E mudar o eixo é mudar critérios de decisão. Um deslocamento essencial para quem pensa liderança consciente e sustentabilidade corporativa na prática.

Do ESG à ampliação dos “Es”

Miguel tocou num ponto que considero essencial: o debate sobre ESG se tornou, muitas vezes, excessivamente instrumental. Ao longo dos anos, a sustentabilidade foi traduzida em métricas e indicadores, avanços importantes, e eu mesma trabalho comunicando isso. O risco é quando a mensuração substitui o sentido.

Na transição do triple bottom line para o ESG, a governança ganhou protagonismo, enquanto a economia perdeu “espaço” no debate. Para ele, não há sustentabilidade sem economia — mas não qualquer economia. Economia circular, redistributiva e regenerativa, que caminhe junto com a ecologia e a equidade. Essa é a base da economia regenerativa proposta por Miguel Setas como alternativa ao modelo “tradicional” de ESG.

A proposta dele envolve 7 “Es” que, a meu ver, amplia o horizonte: Ecologia, Economia, Equidade, Ética, Estética, Espiritualidade e Evolução.

Os três primeiros dialogam com o campo “clássico” da sustentabilidade. Os quatro últimos deslocam a conversa do técnico para o cultural.

Ética, aqui, não é apenas compliance. É ética da interdependência, entre humanos e entre espécies.

Estética reconhece a arte como dimensão constitutiva do humano. Sustentabilidade não é só eficiência; é também sensibilidade. E o Circo Circular, presente no Importa Day, mostrou isso com muita conexão.

E então chegamos ao ponto que, para mim, foi dos mais potentes: Espiritualidade.

O tema que ainda entra pela porta lateral

Falar de espiritualidade no ambiente empresarial ainda causa desconforto. Muitas vezes o assunto surge sob o rótulo mais aceitável de “saúde mental”, que é fundamental, mas não esgota a questão.

Espiritualidade, para mim, está ligada a sentido e pertencimento. É consciência de interdependência. Um tema que amplia o debate sobre espiritualidade corporativa e responsabilidade social corporativa para além das métricas. Em minha trajetória essa dimensão é estruturante, mas sei o quanto ela ainda é evitada nos ambientes corporativos. “Negar a espiritualidade é rebaixar o ser humano ao nível animal ou a uma máquina”, afirma a Dra. Gurudrun Burkhard, no prefácio do livro Liderança e espiritualidade corporativa, de Jair Moggi e Daniel Burkhard. 

Em um país de múltiplas expressões espirituais, tratar sustentabilidade apenas como técnica empobrece o debate. Fica de fora justamente o que toca crenças, valores e responsabilidade diante da vida.

Porque, no fim, a sustentabilidade não se consolida apenas por regulação ou pressão de mercado. Ela se consolida quando vira convicção. Quando orienta decisões mesmo nas tensões entre curto e longo prazo. Quando deixa de ser agenda e passa a ser critério. 

Talvez o avanço do ecocentrismo nas empresas dependa dessa reconexão: compreender que cuidar do planeta não é apenas uma pauta técnica, mas uma postura ética diante da vida. E pela vida. Assim como na frase atribuída ao consultor Rudolf Mann, “nenhuma organização pode ser maior do que o horizonte espiritual das pessoas que, conjuntamente, a carregam”.

O último “E”, o de Evolução, amarra tudo. Sustentabilidade é transformação contínua — tecnológica, cultural e ética. E transformação cultural exige liderança coerente, capaz de alinhar discurso, estratégia e prática.

Sustentabilidade como escolha

Ao apresentar a Motiva (antiga CCR), Miguel faz alusão ao movimento e questiona: importar-se com o que? Importar-se com a vida! Em um setor tradicionalmente associado à infraestrutura de mobilidade, o foco da fala do Miguel se desloca para o essencial — as pessoas.

O propósito de “melhorar a vida das pessoas por meio da mobilidade” traduz essa direção. Mobilidade, vista para além do deslocamento físico, se torna também mobilidade social e cultural.

Projetos culturais e iniciativas de educação ambiental da organização indicam que resultado econômico e impacto social não são dimensões concorrentes, mas partes da mesma lógica de valor.

Ao investir em formação, cultura e Soluções Baseadas na Natureza, a empresa materializa sustentabilidade como construção de capacidade e compromisso de longo prazo.

Importar-se com a vida, no fim, é reconhecer que não há prosperidade possível em um planeta exaurido. E que sustentabilidade é, antes de tudo, uma escolha. Uma síntese que resume bem o que hoje se entende por liderança consciente e propósito de marca aplicados à prática empresarial.

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