Muhammad Yunus e a economia que começa pela escuta

Do empréstimo de US$ 27 numa aldeia de Bangladesh ao Nobel da Paz, a trajetória do criador do microcrédito deixa cinco lições para quem quer unir negócio e cuidado com as pessoas.

FORMATO OBRIGATÓRIO: imagem horizontal clássica, tamanho final 1536×1024 px (proporção 3:2), diferente da imagem de capa. Use a altura total do quadro, sem faixas vazias em cima ou embaixo. Composição surrealista tridimensional com acabamento tátil. Uma moeda gigante de argila clara está em pé como uma roda e gira sobre uma estrada de areia fina; a cada volta, ela passa por pequenos marcos — uma vaca de feltro, um pote de iogurte de cerâmica, uma bicicleta de arame, uma escola de papel — e retorna ao ponto de partida, sugerindo o dinheiro que é reinvestido de novo e de novo. Mãos de papel kraft de diferentes tons empurram a moeda juntas. Um olho estilizado (identidade visual da Marcas que se Importam) integrado sutilmente à composição, discreto no centro da moeda. Fundo texturizado amarelo-açafrão com aspecto de papel artesanal, luz quente de fim de tarde vinda da lateral. Paleta de cores da marca MQSI. Canto superior direito limpo para aplicação do logo. Sem textos, letras ou tipografia na imagem.

Em 1974, Bangladesh atravessava uma das piores fomes de sua história, três anos depois da independência. Na Universidade de Chittagong, um professor de economia recém-chegado dos Estados Unidos, com doutorado em Vanderbilt, sentia um incômodo difícil de ignorar. As teorias elegantes que ensinava em sala de aula não serviam para nada diante de quem passava fome a poucos quilômetros dali.

Muhammad Yunus decidiu atravessar o portão da universidade. Com seus alunos, passou a visitar Jobra, aldeia vizinha ao campus. Mais tarde, diria que ali encontrou sua verdadeira universidade, e nos moradores, seus professores. Desse gesto nasceriam o Grameen Bank, o microcrédito como o mundo conhece e um Nobel da Paz, em 2006. Aos 84 anos, Yunus ainda chefiaria o governo interino de Bangladesh, de agosto de 2024 a fevereiro de 2026. É a trajetória do economista, porém, que interessa aqui. E ela deixa pelo menos cinco aprendizados.

1. Escutar antes de resolver

Em Jobra, Yunus conheceu Sufia Begum, 21 anos, que passava o dia fazendo banquinhos de bambu no quintal de casa. Sem dinheiro para a matéria-prima, ela pegava empréstimo com um agiota, que ficava com os banquinhos pelo preço que ele mesmo fixava. No fim do dia, sobravam a ela cerca de 2 centavos de dólar.

Com a ajuda de uma colaboradora, Yunus levantou quantas pessoas da aldeia viviam presas ao mesmo ciclo. Eram 42, e a soma de suas dívidas chegava a 856 takas, menos de US$ 27. Ele emprestou o valor do próprio bolso, sabendo que o gesto não resolvia o problema. Mas a escuta havia revelado algo que nenhum manual mostrava. A pobreza, ali, não vinha da falta de trabalho ou de habilidade. Vinha da falta de acesso ao crédito.

2. Ninguém é só egoísta

O segundo aprendizado nasce de um contraponto à economia clássica, que consagrou a figura do homem econômico, movido apenas pela busca do ganho pessoal, ideia frequentemente associada a Adam Smith, no século 18. 

Yunus passou a vida questionando essa premissa. Para ele, as pessoas são egoístas e altruístas ao mesmo tempo, e as duas motivações podem mover a atividade econômica.

No livro “A World of Three Zeros” (2017), ele afirma que o problema central do capitalismo, tal como praticado hoje, é reconhecer um único objetivo, a busca egoísta do lucro individual. Um sistema desenhado para metade da natureza humana, segundo ele, acaba produzindo desigualdade, desemprego e destruição ambiental.

3. O lucro pode ter outro destino

Dessa premissa nasceu a proposta mais original de Yunus, o negócio social (social business), uma das bases dos atuais negócios de impacto. É uma empresa criada para resolver um problema social ou ambiental, que precisa se sustentar financeiramente, mas não distribui dividendos. O investidor recebe de volta o valor que aplicou, e todo lucro adicional é reinvestido na própria missão.

A diferença em relação à filantropia está na longevidade do recurso. Nas palavras de Yunus, um dólar de caridade tem uma vida só, enquanto um dólar de negócio social pode ser investido de novo e de novo. Entre os sete princípios que ele formulou para o modelo estão pagar salários de mercado com melhores condições de trabalho, ter consciência ambiental e fazer tudo isso com alegria.

O Grameen cresceu sustentado pela confiança nos mais pobres. Até agosto de 2026, o banco havia emprestado o equivalente a US$ 42,5 bilhões a 10,63 milhões de membros, 97% deles mulheres, com taxa de recuperação de 95,66%.

4. Cooperar com quem parece improvável

Em 2005, um encontro casual com Franck Riboud, então CEO da Danone, deu origem a uma parceria inesperada entre a gigante francesa de laticínios e o banco dos pobres de Bangladesh. Nascia a Grameen Danone, que passou a produzir o Shokti Doi, um iogurte enriquecido com ferro, zinco, vitamina A e iodo, nutrientes que faltam na dieta de muitas crianças do país.

Cada parte entrou com o que sabia fazer. A Danone levou a tecnologia de produção, e o Grameen trouxe o conhecimento do território e sua rede de relações. O leite vinha de pequenos produtores locais, e a venda de porta em porta ficava a cargo de mulheres da região. O lucro, quando havia, voltava para o negócio, sem dividendos para nenhuma das sócias.

5. Medir com honestidade

O microcrédito virou febre mundial, e com a fama vieram as perguntas. Em 2015, seis estudos com grupos de controle, feitos em quatro continentes e reunidos por economistas como Abhijit Banerjee e Esther Duflo, futuros ganhadores do Nobel de Economia, chegaram a uma conclusão ponderada. O acesso ao crédito tinha efeitos positivos, mas modestos. Os pequenos negócios cresciam, sem evidência clara de redução da pobreza. A própria Grameen Danone enfrentou dificuldade para chegar às famílias mais pobres.

Esses resultados não apagam o legado de Yunus. O comitê do Nobel já havia notado, em 2006, que a visão de acabar com a pobreza não se realizaria apenas pelo microcrédito. O aprendizado está em outra parte. Boas ideias precisam de avaliação séria, e reconhecer limites faz parte do compromisso com o impacto real.

De volta a Jobra

Ao receber o Nobel, Yunus disse que o Grameen lhe dera uma fé inabalável na criatividade dos seres humanos. Essa fé começou numa aldeia, diante de uma mulher que fazia banquinhos de bambu. Para as marcas que buscam conciliar resultado e cuidado e construir uma economia mais inclusiva e regenerativa, a lição mais duradoura parece estar nesse primeiro movimento. Antes de desenhar soluções, sair da própria sala e ouvir quem vive o problema.

Fontes consultadas

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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