A economista britânica criadora da Economia Donut propõe substituir a pergunta ‘como crescer’ por ‘como prosperar’, reconciliando as necessidades humanas com os limites do planeta.

Algumas ideias chegam até nós como respostas. Outras, como perguntas. Meu encontro com a obra da economista britânica Kate Raworth aconteceu pela segunda via.
Nos últimos anos, transitando entre o jornalismo, a gestão ambiental e as salas de yoga, percebi que a maioria das discussões sobre sustentabilidade e mudanças climáticas esbarrava sempre na mesma lógica: produzir mais, acelerar mais, expandir mais. O crescimento econômico linear aparecia quase sempre como um consenso silencioso, um dogma raramente colocado em questão.
Uma pergunta insistente passou a me acompanhar: crescer para quê?
Vivemos em um mundo que acumula riqueza e tecnologia em escala inédita. Ao mesmo tempo, convivemos com desigualdades profundas, perda acelerada da biodiversidade e um esgotamento visível, tanto do planeta quanto humano. Foi nesse cenário de paradoxos que a provocação de Kate me fisgou: a economia convencional transformou o Produto Interno Bruto (PIB) de um indicador de atividade em um objetivo final. Passamos décadas associando sucesso a curvas ascendentes, esquecendo que o planeta possui limites físicos intransponíveis e que milhões de pessoas ainda carecem do básico.
Para mudar o rumo dessa história, ela nos convida a trocar a pergunta clássica “Como fazer a economia crescer?”, por uma muito mais vital: “Como fazer a humanidade prosperar?”. Como bem resume a autora, uma economia saudável deve ser projetada para prosperar, não para crescer.
_ Uma economia saudável deve ser projetada para prosperar, não para crescer. _
A bússola do século XXI
Para materializar essa mudança de perspectiva, Kate Raworth criou a Economia Donut (Doughnut Economics), um modelo visualmente simples, mas profundamente disruptivo. Imagine a silhueta de uma rosquinha, delimitada por dois círculos concêntricos:
- O círculo interno (a fundação social): representa o piso mínimo para uma vida digna. Inclui o acesso a alimentação, água, moradia, saúde, educação, energia, igualdade de gênero e participação política. Abaixo dessa linha, há privação humana.
- O círculo externo (o teto ecológico): representa as fronteiras planetárias que não podemos ultrapassar sob o risco de comprometer a estabilidade dos sistemas que sustentam a vida na Terra (como o equilíbrio climático e a biodiversidade).

O “Donut” propriamente dito é o espaço seguro e justo entre esses dois círculos. É o território onde as necessidades humanas são plenamente atendidas sem que a capacidade regenerativa do planeta seja estourada.
O que mais me atrai nessa proposta não é o desenho em si, mas a sua função. O Donut não funciona como uma receita pronta ou um modelo econômico rígido, mas sim como uma bússola. Ele desloca a nossa obsessão pelos números e recoloca no centro o que realmente importa: a qualidade das relações que construímos entre economia, sociedade e natureza. Em tempos de crises simultâneas, direção importa muito mais do que respostas rápidas.
O equilíbrio entre os ciclos e os limites
Há algo na Economia Donut que transborda a teoria econômica e dialoga diretamente com a nossa dificuldade contemporânea de reconhecer limites. Fomos colonizados por narrativas de expansão permanente. Empresas, mercados e carreiras precisam crescer sem parar. Até o desenvolvimento pessoal e as práticas de bem-estar parecem ter sido capturados pela lógica da performance.
Confesso que eu mesma me pego, por vezes, engessando metas rígidas: encaixar a yoga três vezes por semana (sendo uma delas a hormonal), meditar em dias exatos, cumprir os treinos de força e aeróbico… Mas a vida não funciona em linha reta. Tanto a prática do yoga quanto a gestão ambiental nos ensinam a resgatar a natureza como o nosso aprendizado mais refinado. Na Terra, tudo acontece em ciclos. Há momentos de expansão, mas também de pausa, recolhimento e regeneração. Ecossistemas saudáveis não perseguem o crescimento infinito; eles buscam o equilíbrio.
A potência do Donut reside em nos lembrar que a verdadeira prosperidade não floresce na escassez, mas também sufoca no excesso. Ela exige discernimento, escolhas conscientes e a compreensão profunda sobre o que significa suficiente.
_ A verdadeira prosperidade não floresce na escassez, mas também sufoca no excesso. _
Da metáfora à prática
Como facilitadora, aprendi que os processos de transformação real não começam quando temos todas as certezas, mas quando começamos a fazer perguntas melhores. Se o crescimento linear não é o destino, o florescimento e a capacidade de sustentar a vida em todas as suas dimensões passam a ser o norte.
Essa transição não é uma metáfora bonita. Cidades como Amsterdã adotaram oficialmente a Economia Donut como ferramenta de planejamento urbano, orientando decisões concretas sobre habitação, economia circular e políticas públicas de longo prazo e tornando-se referência em economia regenerativa e desenvolvimento sustentável.
O maior ensinamento que levo de Kate Raworth é uma mudança de orientação. Em um século marcado pela urgência climática e por uma pressa difusa que nos faz correr sem saber exatamente para onde, reaprender a distinguir movimento de direção é o primeiro passo para desenhar um futuro em que possamos, finalmente, prosperar.
Fontes consultadas
Perfil Oficial de Kate Raworth no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/kate-raworth-188399291
Website Oficial de Kate Raworth: https://www.kateraworth.com/
Sobre a Autora – Kate Raworth: https://www.kateraworth.com/about/
Doughnut Economics Action Lab (DEAL): https://doughnuteconomics.org/
TED Talk de Kate Raworth: https://www.ted.com/speakers/kate_raworth
* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.





