João do Clima e a geração que aprendeu cedo a lutar pelo futuro

Da mobilização contra um lixão em uma ilha amazônica à construção de políticas públicas para adaptação climática, João Victor da Costa da Silva transforma experiência vivida em mobilização coletiva — sem romantizar o peso que isso impõe à juventude

Aos 13 anos, João Victor da Costa da Silva subiu em um monte de barro no meio de uma rua tomada por lixo em uma ilha de Belém. Em volta dele, moradores gritavam, mototaxistas bloqueavam a avenida, a polícia acompanhava a movimentação e a comunidade tentava entender até onde aquele protesto improvisado poderia chegar.

O lixão ocupava quase toda a via havia semanas. A coleta de resíduos era precária, o chorume escorria pela rua, ratos e moscas se espalhavam pela vizinhança. João lembra que tudo começou sentado na frente de casa, conversando com a tia. “Eu perguntei: ‘Por que a gente não pode fazer alguma coisa?’”, relembra o jovem que hoje está com 16 anos e tem muita história para contar.

Naquele dia, eles pegaram um celular, gravaram vídeos e chamaram moradores para uma mobilização. Quando chegou a hora marcada, ninguém apareceu. Mais tarde chegaram os tios. Uma vizinha surgiu com uma enxada. Aos poucos, a rua inteira começou a se mover.

A mobilização durou dias. Houve ameaças, vigílias durante a madrugada para impedir o descarte de novos resíduos e pressão constante sobre o poder público. “Eu estava tentando acalmar adultos revoltados. Disse que a gente começou a manifestação de forma pacífica e iria terminar assim. Só sairíamos dali quando o lixão fosse retirado”. No terceiro dia, todo o resíduo foi levado.

O mais importante veio depois. “Até hoje a rua continua limpa, porque a comunidade se apropriou daquela luta”, conta animado o jovem protagonista.

Atualmente, o ativista integra conselhos ligados ao UNICEF, atua em articulações sobre políticas climáticas e discute adaptação urbana e proteção de crianças em eventos extremos. Mas a trajetória de “João do Clima”, como ficou conhecido nas redes sociais, não começou em fóruns internacionais nem em conferências globais.

Começou no calor, no lixo acumulado na rua e na percepção de que algumas populações convivem de forma mais intensa e desigual com os efeitos da crise climática. Um retrato direto do que hoje se discute como justiça climática e adaptação climática em territórios vulneráveis.

O clima como experiência vivida

João cresceu em uma ilha amazônica, criado pelos avós enquanto a mãe atravessava diariamente a cidade em jornadas longas de trabalho. Sob calor extremo e exposição constante ao sol, ela desenvolveu um câncer de pele.

“Ela vivia naquela lógica de sobreviver. Trabalhar para colocar comida dentro de casa era mais urgente do que cuidar da própria saúde”, explica. 

Ele tinha cerca de cinco anos quando a mãe morreu. Guarda poucas lembranças. Uma delas é a imagem da mãe em uma cadeira de rodas no hospital.

Com o tempo, começou a entender que aquela experiência não era apenas individual. “Mais tarde fui percebendo que aquilo tinha relação com desigualdade, com condições de trabalho, com exposição extrema ao calor”, avalia.

A relação com o território também moldou sua percepção desde cedo. Crescer em uma ilha amazônica significava viver entre igarapés, praias, árvores e nascentes. Mas significava também assistir ao avanço da urbanização sobre esses espaços. “Eu via as árvores desaparecendo, a erosão aumentando. E aquilo me afetava emocionalmente, porque fazia parte da minha infância”, explica o jovem.

Tentando compreender essas transformações, ele começou a conectar problemas aparentemente separados: o calor excessivo nas escolas, a redução da cobertura vegetal, os alagamentos, os incêndios florestais, a fumaça entrando nas salas de aula e o lixo acumulado nas periferias.

“Aí eu entendi que minha luta não era só contra um lixão – era contra uma crise que atravessa vários setores da sociedade.” Uma percepção que conecta diretamente ativismo climático e liderança juvenil.

Traduzir a crise climática

Uma das marcas mais fortes da atuação de João é a capacidade de transformar uma discussão frequentemente técnica em linguagem cotidiana.

Ele fala menos sobre metas climáticas e mais sobre ruas alagadas, calor dentro de casa, escolas sem ventilação, doenças respiratórias e crianças passando mal durante as aulas.

“Não adianta chegar falando de Agenda 2030 ou adaptação climática. A dona Maria não vai se reconhecer nisso”, alerta João. Um exemplo de como a comunicação sobre crise climática ganha força quando sai da linguagem técnica.

Na prática, sua atuação tem funcionado como uma ponte entre o debate institucional e a vida concreta das periferias amazônicas. “Quando a pessoa percebe que hoje faz mais calor dentro da casa dela, que a chuva mudou, que a rua está alagando, ela entende que isso afeta diretamente a vida dela”, explica.

Essa capacidade de tradução também fez com que João se tornasse uma referência local para demandas que ultrapassam a pauta ambiental. Jovens o procuram para denunciar violência, abuso, exploração infantil e sofrimento psicológico.

“Às vezes as pessoas não sabem nem para quem ligar. Mas sabem o número do João do Clima”, comenta.

Ele conta que já recebeu telefonemas de madrugada durante incêndios florestais na ilha, com moradores pedindo ajuda para acionar bombeiros e autoridades públicas. “Isso tem um lado bonito, porque mostra confiança. Mas também tem um peso muito grande.” Um retrato do que significa mobilização comunitária na prática, além dos espaços institucionais.

Juventude, política e pertencimento

Nos últimos anos, João passou a ocupar espaços nacionais e internacionais ligados à agenda climática e aos direitos da juventude. Participou de debates nos Diálogos Amazônicos, atua como conselheiro jovem do UNICEF Brasil e desenvolve articulações voltadas à adaptação climática nas escolas de Belém.

Entre as propostas que ajuda a construir está um plano de advocacy para criação de uma lei de adaptação e resiliência climática nas escolas do município. “A gente tem escola sofrendo com enchente, calor extremo, falta de climatização. Já teve aluno desmaiando em sala”, explica.

Apesar disso, João evita tratar esses espaços como conquistas individuais. Em quase toda a entrevista, o discurso volta ao coletivo, ao território e à ideia de representação. “Existe uma juventude das ilhas. Existe uma juventude amazônida, preta e periférica”, fala João, a partir da realidade que vive.

Sua leitura sobre liderança nasce desse pertencimento. Não aparece como conceito abstrato nem como linguagem corporativa. Surge da experiência direta com vulnerabilidade, mobilização comunitária e pressão política.

A trajetória desse representante juvenil ajuda a explicar por que discussões sobre liderança regenerativa, escuta, coragem e mobilização coletiva ganham força quando atravessam experiências reais. Um conceito que também dialoga com a ideia de liderança juvenil e justiça climática no território amazônico. João não fala como quem aprendeu liderança em cursos ou metodologias. Sua liderança nasce da tentativa de proteger o território onde vive e as pessoas ao redor dele.

A geração que não deveria estar ali

O aspecto mais contundente da fala de João parece ser justamente a recusa em romantizar o ativismo juvenil.

Enquanto boa parte do discurso público celebra jovens ativistas como símbolo de esperança, ele insiste em lembrar que existe algo profundamente errado em crianças e adolescentes precisarem ocupar espaços altamente politizados para defender o próprio direito ao futuro.

“A COP não é um ambiente pensado para crianças e adolescentes”, adverte o jovem.

Ele descreve esses espaços como ambientes técnicos, pressionados por interesses econômicos e políticos, muitas vezes hostis para jovens.

“A gente luta porque não tem alternativa”. A frase aparece várias vezes ao longo da conversa, sempre acompanhada de outra ideia: a de que juventude também deveria significar descoberta, convivência, brincadeira e construção de futuro – não apenas enfrentamento permanente.

“Eu queria que os jovens pudessem viver plenamente a juventude deles, sem precisar lutar o tempo inteiro por direitos básicos ou pelo futuro do planeta”, explica. 

Ao longo da conversa, fica evidente que a trajetória de João ultrapassa a história individual de um jovem ativista. Ela revela uma geração que precisou amadurecer cedo demais diante da sensação de que os adultos já não conseguem proteger o mundo que será deixado para ela.

E talvez seja justamente daí que venha a força da sua voz: João não fala sobre crise climática como abstração. Ele fala sobre aquilo que atravessa o corpo, o território, a escola, a família e o futuro. Uma síntese poderosa do que hoje se entende por ativismo climático vivido, e não apenas discursado.

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