Adriana Hartmann e o impacto nos negócios

A executiva mostra como decisões sobre cadeias produtivas, ciência e relações de longo prazo ajudam a ampliar o conceito de liderança empresarial. 

Ao ouvir a Adriana Hartmann contando sobre a Mars pude rever uma ideia simplista que eu carregava sem questionar. Quase instintivamente, ao olhar para uma empresa como a Mars, eu pensava no açúcar e no consumo rápido, seja dos M&Ms ou dos outros snacks. Logo depois, lembro das frentes de cuidado com os pets: nutrição, saúde e serviços veterinários. 

É aí que surge a pergunta: por que, afinal, a Mars é considerada uma empresa que se importa? 

O cacau entrou como um ponto de virada na minha escuta. Está claro para mim que por trás de um produto há uma cadeia inteira, com ciência, agricultura, pessoas e decisões de longo prazo. 

Soube que a Mars mantém centros de ciência do cacau, um deles em Barro Preto, no sul da Bahia, e que, mais do que garantir matéria-prima, trata-se de um espaço para entender o futuro do cacau. É também a chance de apoiar produtores, preservar a qualidade e, principalmente, sustentar uma cadeia que historicamente foi marcada por vulnerabilidades sociais e ambientais. 

Aprendi que inovação, nesse contexto, não está só no produto final. Ela começa na origem. 

Quando uma empresa decide investir em pesquisa, desenvolvimento e regeneração de uma cultura como o cacau, ela está, na prática, fazendo uma escolha. Está assumindo a responsabilidade sobre o impacto que gera ao longo de toda a cadeia. E, mais do que isso, pode apoiar o Brasil em seu reposicionamento como protagonista desta produção que já foi central para o país. Uma expressão prática de responsabilidade social corporativa aplicada à economia regenerativa. A Adriana disse que essa é uma das intenções da Mars.

Negócios que atravessam gerações

Outro ponto que me chamou a atenção foi que a empresa não opera por trimestres, mas sim com foco nas próximas gerações. 

A percepção que tive foi que, por ser uma empresa familiar, a Mars parece carregar uma lógica menos imediatista e mais contínua. Isso se traduz em decisões que, muitas vezes, não são as mais rápidas ou as mais fáceis — mas são as mais sustentáveis no tempo.

Essa visão muda o tipo de pergunta que guia o negócio. Da lógica do “quanto podemos crescer agora?” para a pergunta-chave: “qual impacto queremos deixar ao longo do tempo?”. Isso, inevitavelmente, reposiciona o papel da liderança. E quando os valores passam a orientar o negócio, a liderança deixa de ser operadora de resultados e se torna guardiã de coerência. Esse é um dos pilares centrais da liderança consciente.

A Mars atua há mais de cinco gerações tendo como base cinco princípios: qualidade, responsabilidade, mutualidade, eficiência e liberdade. Até aqui, nada tão diferente, muitas empresas também têm princípios bem definidos. E, muitas vezes, eles ficam só na parede. 

O que me chamou a atenção foi o princípio da mutualidade e a maneira como a Adriana descreveu sua relevância. A ideia é simples de dizer e complexa de executar: um negócio só prospera de forma consistente quando todos os envolvidos prosperam junto — da cadeia produtiva ao consumidor, passando por colaboradores, parceiros e comunidades. 

A mutualidade aparece nas escolhas: no investimento em ciência do cacau, no apoio a produtores, na forma como a empresa se organiza internamente, e também na frente de petcare. Ao estruturar uma rede global de hospitais veterinários, investir em ciência para entender melhor a saúde dos animais e desenvolver iniciativas para reduzir o número de pets sem lar, a Mars amplia o impacto do seu negócio para além do produto. Essa visão amplia o conceito tradicional de ESG, unindo governança, ciência e cuidado.

Percebi que, quando esse princípio é levado a sério, ele vira um critério de decisão, não apenas um valor na parede.

Voltando ao fato de os colaboradores serem chamados de associados, tirei daí também uma reflexão. A palavra desloca a relação tradicional entre empresa e colaborador e sugere um modelo em que as pessoas participam mais das decisões, além de estarem na execução.

Isso dialoga muito com o Marcas que se Importam: uma empresa que pensa no longo prazo, que valoriza relações, que entende impacto como algo compartilhado e que trata as pessoas de forma próxima. Um retrato de liderança consciente e sustentabilidade corporativa aplicada ao dia a dia dos negócios.

Mutualidade como critério de decisão 

No fundo, não é sobre chocolate ou ração. É sobre aquilo que eu não via quando olhava para eles.

É como uma empresa escolhe se posicionar diante daquilo que sustenta o seu próprio negócio, reconhecendo que toda cadeia produtiva carrega histórias, desafios e oportunidades de transformação.

E, principalmente, entendendo que impacto — positivo ou negativo — nunca é neutro. A diferença está em quem decide olhar para isso de frente. E é justamente essa escolha que separa o discurso de ESG da prática real de impacto socioambiental.

Mais Lidas

Uma conversa franca com Ricardo Voltolini sobre as marcas que se importam

ESG

Antes de escrever sobre marcas que se importam, atuei para construir uma
Cidades que Florescem: e se o sucesso de uma cidade não coubesse no PIB?
A automação pode devolver à humanidade o tempo que ela perdeu

Preencha o nosso formulário:

O envio deste formulário não confirma sua inscrição no Marcas que se Importam. Nossa equipe vai analisar as informações e entrará em contato em breve com os próximos passos.