Gabriela Hearst: a estilista que propõe permanência e limites ambientais à moda

A uruguaia tornou-se uma das vozes mais influentes da moda ao aproximar crise climática, responsabilidade e consumo em um setor historicamente associado ao excesso.

Colagem escultórica 3D surrealista de uma paisagem rural estilizada esculpida em argila e sisal — colinas, ovelhas e um celeiro simplificado — se transformando gradualmente em tecidos e fios de alta-costura na parte superior da composição, unindo origem rural e moda de luxo. Olho estilizado da MQSI integrado discretamente à composição. Paleta de cores da marca, fundo sólido ou levemente texturizado. Sem texto na imagem.

O luxo sempre soube produzir desejo. Poucas vezes, porém, precisou responder de forma tão direta à pergunta que atravessa o século 21:

É nesse contexto que a uruguaia Gabriela Hearst construiu sua trajetória. Em uma indústria historicamente associada ao excesso, à velocidade e ao consumo permanente, Gabriela transformou a sustentabilidade em parte central do discurso e da estética do luxo contemporâneo.

Não por acaso, ela se tornou uma das vozes mais influentes da moda quando o assunto é luxo sustentável e responsabilidade ambiental. Mais do que falar sobre tecidos reciclados ou redução de plástico, Gabriela Hearst ajudou a levar a crise climática para dentro das passarelas, aproximando a moda de debates sobre energia, biodiversidade, rastreabilidade, desperdício e impacto ambiental.

Sua história começa longe de Paris ou Nova York. Gabriela nasceu no Uruguai e cresceu na fazenda da família, Santa Isabel, em Paysandú, cercada por cavalos, gado e ovelhas. Em entrevistas, costuma dizer que sua compreensão de luxo nasceu ali: objetos bem-feitos, capazes de durar por décadas, transmitidos entre gerações. Em vez da lógica do descarte, a permanência. Mais tarde, ela passaria a definir essa visão como uma forma de “luxo honesto”, um dos pilares da moda sustentável,: menos associado ao excesso e mais ligado à durabilidade, ao cuidado e à qualidade do que é produzido.

O luxo como permanência

Essa origem rural aparece frequentemente como elemento estruturante de sua visão de mundo. Em conversas com veículos como Vogue e ELLE, Hearst relembra uma infância marcada pelo reaproveitamento de materiais, pela relação direta com os ciclos naturais e pela valorização do trabalho manual. Sustentabilidade, no caso dela, surgiu como experiência concreta de vida. Essa diferença ajuda a explicar por que sua marca tem como objetivo reposicionar a própria ideia de desejo dentro da moda contemporânea.

Depois de estudar Comunicação no Uruguai e passar mais de uma década trabalhando com moda em Nova York, lançou sua marca homônima em 2015. Desde o início, apresentou uma proposta incomum para o mercado de luxo: produção limitada, atenção à origem dos materiais, valorização do artesanato e redução de desperdícios. As bolsas da marca, por exemplo, passaram a ser produzidas em pequenas quantidades e, inicialmente, apenas sob encomenda.

Sustentabilidade como linguagem estética

Ao longo dos anos, a estilista transformou a sustentabilidade em linguagem criativa. Em 2017, apresentou um desfile com cerca de 30% de tecidos excedentes e eliminou o uso de plástico nos bastidores. Pouco depois, a marca passou a utilizar embalagens compostáveis e implementou medidas de rastreabilidade digital para acompanhar a cadeia produtiva das peças.

Em 2019, Hearst chamou atenção ao produzir aquele que foi apresentado como um dos primeiros desfiles de moda de luxo carbono neutro da indústria. A ação não era isolada. Em suas coleções, resíduos têxteis passaram a ser reaproveitados como matéria-prima, cashmeres antigos foram reconstruídos manualmente e materiais reciclados passaram a integrar tanto as roupas quanto a cenografia dos desfiles.

Um dos movimentos mais simbólicos de sua trajetória aconteceu em dezembro de 2020, quando foi nomeada diretora criativa da Chloé, tornando-se a primeira estilista latino-americana a comandar uma grande maison parisiense.

O teste da indústria de luxo

Sua chegada à Chloé representava uma espécie de teste para a indústria: seria possível aplicar princípios ambientais concretos dentro de uma estrutura global de luxo?

Durante sua gestão, a marca ampliou o uso de materiais reciclados, investiu em rastreabilidade e se tornou a primeira grande casa de luxo europeia certificada como B Corp, selo internacional concedido a empresas que cumprem critérios de impacto social e ambiental.

Ao mesmo tempo, Gabriela expandiu o alcance político de sua atuação. Participou de conferências climáticas da ONU, como a COP27 e a COP28, discutindo temas como energia limpa e inovação tecnológica. Também se aproximou de organizações humanitárias, especialmente a Save the Children, da qual se tornou conselheira e posteriormente embaixadora.

Em 2017, após visitar regiões afetadas pela seca no Quênia, Hearst mobilizou uma campanha para arrecadar recursos destinados a famílias impactadas pela fome. Nos anos seguintes, repetiu ações semelhantes voltadas a crises humanitárias no Iêmen, Afeganistão e outras regiões vulneráveis.

Essa dimensão política ajuda a explicar por que Gabriela Hearst extrapolou o universo da moda. Seus desfiles passaram a incorporar ativistas climáticos, cientistas e referências explícitas a temas ambientais. Em uma coleção da Chloé, a estilista dedicou parte do conceito criativo à discussão sobre energia de fusão nuclear, aproximando ciência e passarela de maneira pouco comum na indústria.

Entre desejo e responsabilidade

Ainda assim, as contradições permanecem e é justamente isso que torna sua trajetória tão emblemática para o nosso tempo. Gabriela Hearst continua atuando em uma das indústrias mais associadas ao excesso, ao desejo e ao consumo aspiracional. Seus produtos seguem acessíveis a poucos, enquanto a moda global ainda depende de cadeias produtivas complexas, alto impacto ambiental e estímulo constante à renovação do consumo.

Mas sua presença ajudou a abrir espaço para perguntas que, até pouco tempo, raramente apareciam na indústria da moda: de onde vêm os materiais? Quanto de carbono uma coleção emite? O que significa produzir beleza em um planeta sob pressão climática? Ao aproximar passarela, ciência, rastreabilidade e responsabilidade produtiva, Gabriela ampliou o alcance político e cultural da moda contemporânea.

Esse movimento também lhe rendeu reconhecimento internacional. Em 2024, Gabriela Hearst foi homenageada no TIME Earth Awards, premiação da revista TIME dedicada a lideranças que contribuem para moldar o futuro do planeta 

Gabriela Hearst representa uma tentativa, ainda em construção, de reconciliar criação, desejo e responsabilidade em uma indústria que passou décadas evitando discutir seus próprios impactos.

Fontes consultadas

Gabriela Hearst Official 

Chloé Official 

Vogue – Gabriela Hearst Is Ushering in a New Era at Chloé 

National Geographic – Gabriela Hearst and Sustainability in Fashion 



* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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