O ex-vice-presidente dos EUA e um dos principais tradutores da agenda climática no mundo vem mostrando o descompasso que define nosso tempo.

Por muito tempo, a crise climática foi tratada como um problema de informação. Alguns diziam que faltavam dados, evidências, consciência. Hoje, essa hipótese não se sustenta mais. Segundo Al Gore, o que falta não é saber, mas sim conseguir transformar o que sabemos em prioridade, decisão e ação. Esse é o cerne da liderança consciente. Trata-se de agir na velocidade que a crise climática exige.
Sabemos que a temperatura está subindo, que eventos extremos se intensificam, que sistemas naturais estão sob pressão e que os impactos não são futuros, estão no presente, são distribuídos de forma desigual e cada vez mais difíceis de ignorar.
O que Al Gore ajuda a revelar é que o maior problema da crise climática já não está no diagnóstico. Está no descompasso entre o que sabemos e a forma como (ou a velocidade com que) conseguimos agir.
O diagnóstico já foi feito
A crise climática deixou de ser uma projeção científica para se tornar uma experiência concreta. Ela aparece nos extremos, como incêndios, secas e enchentes. E, também, nas estruturas, como a segurança alimentar, o acesso à água, a saúde, os fluxos migratórios e a perda de biodiversidade.
E, ainda assim, continua sendo parcialmente invisível.
Não vemos os gases de efeito estufa. Não percebemos imediatamente a relação entre causa e consequência. Existe um atraso entre o que emitimos hoje e o impacto que sentiremos amanhã. Esse descolamento dificulta a reação e sustenta a inércia.
Mais do que isso, revela algo central. A crise climática não é apenas um problema físico, é também um problema de percepção.
Gore foi uma das figuras centrais ao tornar visível o que, por natureza, não é.
Se o diagnóstico está dado, por que seguimos avançando tão lentamente? Gore entende que a velocidade da crise não é a mesma da resposta.
Enquanto os impactos aceleram, decisões continuam travadas por estruturas que operam em outro ritmo, como ciclos políticos curtos, interesses econômicos estabelecidos e modelos de negócio que ainda não incorporam o custo real do que produzem.
A crise climática, nesse sentido, não é apenas ambiental. É também uma crise de governança.
Não faltam soluções tecnológicas. Energia renovável, eletrificação, novos modelos produtivos já existem, e avançam. O gargalo está em outra camada, a capacidade de alinhar decisão, escala, tempo – e transformá-los em prioridade.
O desafio não é mais convencer. É acelerar.
_O maior desafio da crise climática já não está na falta de informação, mas na dificuldade de transformar conhecimento em decisões na velocidade que o problema exige._
Quando comunicar não é suficiente
A partir disso, Gore mostra que dados, sozinhos, não mobilizam. É a narrativa, quando conecta razão, emoção e urgência, que transforma informação em ação.
Neste sentido, sua atuação vem se desdobrando em diferentes projetos — cada um operando em uma camada específica da resposta à crise.x
Com o The Climate Reality Project, a aposta é na mobilização, que passa por formar lideranças, transformar informação em ação distribuída e criar pressão social capaz de influenciar decisões maiores.
Na Generation Investment Management, o foco é outro, redirecionar capital. Incorporar sustentabilidade como critério central de investimento e, com isso, influenciar quais modelos de negócio ganham escala.
Já o Deep Space Climate Observatory atua em uma camada mais sutil, mas igualmente estratégica, a percepção. Ao mostrar a Terra como um sistema único, ajuda a reduzir a distância entre dado e consciência.
Percebi que não são iniciativas isoladas, são intervenções coordenadas em diferentes níveis de um mesmo problema.
_O desafio não é convencer. É reorganizar sistemas, mobilizar pessoas e tornar a ação climática uma prioridade estratégica._
O que isso muda para marcas
Para quem está construindo marcas – especialmente marcas que se importam – talvez esse seja o ponto mais incômodo.
Durante anos, avançamos na agenda de comunicação, como propósito, compromissos e narrativas ESG. Isso foi importante. A agenda ESG precisa evoluir do discurso para a prática, tornando-se parte central da estratégia de negócio. Mas, na atual situação, já não é suficiente.
O trabalho de Gore evidencia um deslocamento claro. Não basta comunicar, é preciso mobilizar; para além de assumir compromissos, é preciso operar em escala; não adianta incorporar ESG como discurso, é preciso que as questões sociais, ambientais e de governança sejam, de fato, decisão de negócio. É esse deslocamento que transforma propósito de marca em sustentabilidade corporativa de verdade.
Mais do que reconhecer a crise, é preciso tratá-la como prioridade estratégica.
Fica claro que a crise climática não será resolvida no campo da intenção. Ela será resolvida – ou não – na forma como sistemas inteiros se reorganizam.
E marcas são parte desses sistemas.
O desafio não é mais convencer – e existe algo de desconfortável nessa constatação. Se ainda estamos apenas explicando o problema, talvez já estejamos atrasados em relação ao que ele exige.
Al Gore começou como um dos grandes comunicadores da crise climática e hoje atua como alguém que tenta reorganizar as condições de resposta, mobilizando pessoas, redirecionando capital, ampliando a percepção. Um exemplo prático de como a liderança consciente se traduz em ação climática coordenada.
Percebi que não basta tornar a crise visível, é preciso torná-la inadiável.
A questão, agora, é saber quem está disposto a agir na velocidade e com a prioridade que o problema impõe. Uma pergunta que também cabe a marcas comprometidas com ESG, sustentabilidade corporativa, responsabilidade social corporativa e regeneração.
Fontes consultadas
Al Gore: https://algore.com/
IPCC: https://www.ipcc.ch/assessment-report/ar6/?utm_source=chatgpt.com
UNEP: https://www.unep.org/resources/emissions-gap-report?utm_source=chatgpt.com
Al Gore. An Inconvenient Truth. 2006.
Al Gore. Our Choice: A Plan to Solve the Climate Crisis. 2009.
Al Gore. An Inconvenient Sequel: Truth to Power. 2017.





