Desafio de sustentabilidade é mais relacional do que técnico

Diretor da Reconectta e do Movimento Escolas pelo Clima, Edson Grandisoli defende que a sustentabilidade é, antes de tudo, um valor humano — e que sem confiança, nenhuma solução técnica se sustenta.

Em 2027, o Relatório Brundtland completa 40 anos. Trata-se de um dos principais marcos na história da sustentabilidade, responsável por lançar as bases para a construção de formas mais harmoniosas de desenvolvimento, algo que já se mostrava necessário desde, pelo menos, a década de 1960, quando os limites do crescimento começaram a se tornar evidentes.

Mas como avançamos nessas últimas décadas?

Ao analisarmos os principais indicadores relacionados aos limites planetários, como a pegada ecológica, a pegada de carbono, o Dia da Sobrecarga da Terra e os estudos desenvolvidos, desde 2009, pelos cientistas do Centro de Resiliência de Estocolmo, o cenário não é animador. Apesar dos avanços tecnológicos, das políticas públicas e do aumento da conscientização sobre os desafios socioambientais, já ultrapassamos diversos limites planetários, com impactos negativos significativos sobre a biodiversidade e, especialmente, sobre as populações mais vulneráveis.

A construção de caminhos possíveis depende de uma compreensão ampliada das múltiplas relações e dos feedbacks entre causas e consequências. Sendo assim, torna-se essencial valorizar as ciências interdisciplinares, capazes de articular diferentes áreas do conhecimento na busca por soluções mais integradas e consistentes. A educação básica, o ensino superior e os institutos de pesquisa têm muito a avançar se desejam cumprir, de fato, seu papel de formar pessoas capazes de compreender e atuar diante das incertezas e da complexidade do mundo contemporâneo.

Desafios como mudanças climáticas, economia circular, redução das desigualdades, transição energética e bioeconomia estão profundamente interconectados. Eles se influenciam mutuamente e têm, em sua base, diferentes atores sociais, pessoas e grupos que carregam histórias, valores e visões de mundo distintas, resultando em respostas diferentes para os mesmos problemas.

A sustentabilidade, portanto, emana das pessoas e trata-se, antes de tudo, de um atributo humano, um valor que aspiramos consolidar ao lado de outros, como liberdade, paz, democracia e confiança.

Para que a sustentabilidade seja legítima, é fundamental que os diferentes atores sociais estejam alinhados em torno de propósitos comuns e seguros de que todos estão, de fato, fazendo a sua parte. É nesse ponto que emerge o conceito de corresponsabilização, ou responsabilidade compartilhada.

No entanto, entre os principais entraves para o fortalecimento de uma cultura de sustentabilidade, destaca-se uma outra crise: a crise de confiança.

Fonte: www.visualcapitalist.com/charted-where-people-trust-each-other-most-and-least-in-the-world/ 

Uma pesquisa realizada em 25 países revela que, em 12 deles, mais da metade da população declara não confiar nas outras pessoas. No Brasil, esse índice é de 77%. A esse cenário soma-se o aumento da polarização, apontada pelo Fórum Econômico Mundial como um dos principais riscos globais da atualidade.

Pensar estratégias de sustentabilidade implica, necessariamente, em construir parcerias de conhecimento, de ação e de compromisso. Mas como avançar em um mundo marcado pela desconfiança?

Talvez seja preciso, antes de tudo, recolocar a confiança social no centro das nossas relações. Cultivá-la no cotidiano, nos vínculos interpessoais e nos ambientes profissionais. Afinal, a sustentabilidade depende de relações saudáveis e o que vemos, cada vez mais, é o avanço do isolamento, do individualismo e da lógica competitiva.

Se a sustentabilidade é um valor humano, ela precisa ser cultivada desde cedo. Isso passa, inevitavelmente, por aprender a confiar, cooperar e agir coletivamente. Talvez resida aí um dos papéis mais urgentes da educação no nosso tempo.

Podemos avançar em tecnologias, políticas e soluções, mas, sem confiança, nenhuma delas se sustenta. Porque, no fundo, o maior desafio da sustentabilidade hoje não é técnico, é relacional.

E você: quanto você confia nas outras pessoas e instituições?

* Edson Grandisoli é Diretor da Reconectta e do Movimento Escolas pelo Clima. É articulista do Movimento Marcas que se Importam.

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