A abordagem humanizada de Bob Chapman

Matthew Richey, CFO terceirizado de Seattle, revisita a trajetória de Bob Chapman, que liderou a Barry-Wehmiller por 50 anos, para mostrar como finanças e espiritualidade podem caminhar juntas na liderança.

O melhor livro de negócios que li nos últimos anos quase não tem nada a ver com estratégia empresarial — e sim com a forma como enxergamos as pessoas.

Ao longo da minha vida adulta, tive dois interesses principais: finanças e espiritualidade. Durante muito tempo, essas atividades seguiram caminhos separados. Finanças era o foco da minha carreira, baseado em uma fascinação de longa data pelo mercado de ações e por como as empresas criam valor. Espiritualidade era o campo da minha curiosidade filosófica sobre as questões profundas da vida e a natureza da realidade. Cada uma era uma busca significativa para mim, mas totalmente distinta — ou pelo menos era o que eu pensava.

Por volta de 2018, tive uma experiência indescritível, mas que me pareceu significativa. Eu tinha acabado de estacionar na minha academia local e estava contemplando as magníficas árvores centenárias que temos aqui no Noroeste do Pacífico. Senti uma leve mudança, silenciosa, mas impactante, que me preencheu com uma sensação de unidade em toda a vida. Sem entrar em detalhes, posso dizer que isso me proporcionou clareza e compaixão. Isso deu início a um despertar progressivo desde então.

Sei que este é um território incomum para um artigo de negócios, mas vejo uma conexão relevante entre percepção espiritual e liderança empresarial, e é por isso que estou compartilhando minha história aqui.

Deixei o mundo corporativo em 2023. Inicialmente, foi para um período sabático durante o último ano do ensino médio do meu filho, quando eu queria estar totalmente presente antes que ele fosse para a faculdade. Mas, em um nível mais profundo, eu me perguntava qual seria o próximo passo na minha carreira. Eu tinha uma sólida experiência em finanças, mas também um crescente interesse pelo bem-estar humano. Sentia que havia algum tipo de interseção entre essas duas paixões, mas não conseguia defini-la.

Então, dois livros surgiram no último ano e me mostraram o caminho.

O primeiro foi “A Vantagem”, de Patrick Lencioni. Sou fã de Lencioni há anos, mas este livro realmente me impactou. Sua premissa é que, para uma organização atingir seu pleno potencial, ela precisa de duas coisas: inteligência e saúde.

Por inteligência, ele se refere à perspicácia em todas as disciplinas tradicionais de negócios, como estratégia, finanças e marketing. Por saúde, ele se refere à necessidade de que as pessoas dentro da empresa tenham clareza de missão, liderança coesa e uma cultura de confiança e responsabilidade. O problema é que a maioria dos executivos se concentra quase que exclusivamente em ser inteligente. Enquanto isso, a saúde organizacional é negligenciada, o que se manifesta em jogos de poder no escritório, baixa moral e confusão.

Lencioni me fez refletir porque eu havia vivenciado isso em primeira mão. Testemunhei empresas extremamente inteligentes e capazes sofrerem com problemas de saúde organizacional que nos impediam de crescer de uma forma que nenhum esforço adicional de “inteligência” conseguia superar. Minha intuição me dizia que Lencioni tinha descoberto algo importante. Mas, por mais que eu estudasse e analisasse “A Vantagem” em todas as suas estruturas e princípios, ainda sentia que algo estava faltando. Isso ficou claro no segundo livro. Em um publicação no LinkedIn, compartilhei minha pesquisa sobre empresas ganha-ganha-ganha, que visam o bem-estar de proprietários, funcionários e clientes. Uma dessas empresas que me chamou a atenção foi a Barry-Wehmiller (B-W), um conglomerado industrial com sede em St. Louis. Vi que seu CEO de longa data, Bob Chapman, havia escrito um livro em parceria com Raj Sisodia: “Everybody Matters: The Extraordinary Power of Caring for Your People Like Family” (Todos Importam: O Poder Extraordinário de Cuidar das Pessoas como Família).

O título diz tudo. A ênfase de Bob Chapman em cuidar das pessoas como se fossem da família é, na minha opinião, o elemento essencial para que a fórmula de Lencioni para a saúde organizacional realmente funcione. A chave é que isso precisa vir do coração, e para Chapman, claramente veio.

O livro conta a história de Chapman, que resgatou a B-W da quase falência para a saúde e, eventualmente, para um crescimento próspero. Hoje, é uma empresa global com quase US$ 4 bilhões em vendas, 12.000 funcionários e um histórico excepcional de retorno anualizado de 16% para seus acionistas privados nos últimos 20 anos.

A principal conclusão da história da B-W é que priorizar o bem-estar humano no ambiente de trabalho não precisa comprometer a lucratividade ou o retorno de longo prazo para os acionistas. Na verdade, o sucesso da B-W fornece evidências confiáveis ​​de que uma abordagem centrada no ser humano cria um ambiente que fomenta a melhoria das operações – melhor atendimento, colaboração e inovação – fatores que contribuem para reforçar a criação de valor econômico a longo prazo.

Eis como Chapman descreve: “Quando as pessoas se sentem valorizadas, algo extraordinário acontece: elas dão o melhor de si – não porque são forçadas, mas porque são inspiradas. Esse é o poder de cuidar das pessoas como se fossem da família. Não se trata apenas de melhores resultados para os negócios – embora eles quase sempre venham como consequência. Trata-se de criar um mundo onde todos se sintam importantes.”

O que torna a história de Bob Chapman tão fascinante para mim, pessoalmente, é que a reviravolta da B-W pode ser vista sob a ótica de dois interesses que me acompanham a vida toda: finanças e espiritualidade. Foi a disciplina financeira na criação de um modelo de negócios sólido com receita recorrente, somada a um despertar espiritual que alimentou um cuidado genuíno e profundo com as pessoas.

É importante ressaltar que tanto as finanças quanto a espiritualidade desempenharam um papel crucial no sucesso da B-W. O livro se concentra na história das pessoas e da cultura da B-W, porque foi aí que a verdadeira inovação se deu, mas isso não significa que a estratégia e as finanças sejam menos importantes. Este é um ponto que pode passar despercebido, e é por isso que o estou destacando.

No livro, Chapman menciona ter sido inspirado por Chuck Knight (1973-2000), CEO da Emerson Electric, cuja filosofia de gestão se concentrava em controles financeiros rigorosos, planejamento disciplinado e excelência operacional. Esses aspectos correspondem ao lado “inteligente” dos negócios, na terminologia de Lencioni, e claramente desempenharam um papel importante no sucesso da B-W. Bob Chapman confirmou isso em uma entrevista quando questionado se atribuía o sucesso da empresa mais ao modelo de negócios ou à cultura, e afirmou categoricamente que o modelo de receita recorrente era absolutamente a base. Sem isso, não há espaço para as pessoas crescerem e prosperarem.

Seria fácil reduzir a história de Bob Chapman apenas à sua preocupação com as pessoas, especialmente porque essa é uma dimensão tão bela de sua trajetória. Mas o que considero seu verdadeiro divisor de águas foi trazer uma abordagem totalmente humana para os negócios, que é, em essência, “ambos”: inteligente e saudável, perspicaz e atenciosa, mente e coração. Chapman resume isso assim: “Não se trata de pessoas acima do lucro, mas sim de pessoas em harmonia com o lucro.”

A questão mais interessante é o que motivou a transformação de Chapman em primeiro lugar. Devo começar esclarecendo que o que estou chamando de transformação espiritual é, assumidamente, minha própria interpretação. É um livro escrito na linguagem da liderança empresarial, não da espiritualidade. A palavra “espiritual” é usada apenas duas vezes em todo o livro. O foco está nos principais pontos de virada da B-W e nos aspectos práticos da filosofia de Chapman. Mas, na minha opinião, há muitas pistas sobre os fundamentos espirituais da história de Chapman, e uma forte indicação surge no capítulo final com a menção aos seus “despertares”. Mais do que apenas ideias ou filosofia, Chapman vivenciou algo que remodelou completamente a sua visão de mundo.

Mudanças de perspectiva são uma marca registrada da experiência espiritual. Vemos isso refletido na maneira como Chapman frequentemente enquadra suas percepções na linguagem da visão. Observe, por exemplo, no trecho a seguir, como ele descreve uma mudança baseada em uma nova perspectiva: “Aprendi que as pessoas eram funções para o meu sucesso e o da minha organização. Mas quando minha perspectiva foi invertida e passei a ver aqueles sob meus cuidados como os filhos preciosos de alguém, tudo mudou. A maneira como vemos as pessoas afeta a maneira como as tratamos.”

Seja qual for a mudança que ocorreu dentro de Chapman, ela o levou a se importar de verdade, em um nível profundo. Para Chapman, as pessoas não eram mais “recursos” ou engrenagens na máquina corporativa, mas indivíduos com seus próprios sonhos, famílias e emoções, todos impactados pelo que acontece diariamente no ambiente de trabalho. Esse tipo de mudança não pode ser fingida ou treinada. Precisa ser sentida e acolhido profundamente.

Focar nos princípios de liderança de Chapman apenas como uma lista de verificação altruísta é ignorar o verdadeiro poder que tornou Bob Chapman tão eficaz. É bom aprender e conhecer os princípios, mas o que possibilita a verdadeira transformação é vivenciá-los – guardá-los no coração e incorporá-los com convicção.

Um dos pontos altos do livro é a história de Chapman sobre a ocasião aparentemente banal que catalisou seu despertar. A versão a seguir do relato é de uma palestra de 2019 que oferece uma descrição mais completa:

“A história mais significativa que conto — aquela que me converteu da gestão tradicional para o que chamo de liderança verdadeiramente humana — aconteceu em um casamento em Aspen. Um amigo nosso de St. Louis estava casando sua filha com o filho de outro amigo. Cerimônia tradicional. Enquanto meu amigo conduzia a filha ao altar, todos admiravam como ela estava especial e como ele estava orgulhoso. Quando chegou ao altar, ele pegou a mão da filha e a entregou ao rapaz, dizendo: ‘Eu e a mãe dela entregamos nossa filha em casamento a este rapaz.’ E sentou-se ao lado da esposa.”

“Tendo acompanhado minhas duas preciosas filhas ao altar, eu sabia que era isso que lhe haviam dito para dizer no jantar de ensaio. Mas não era isso que ele queria dizer. O que ele queria dizer era: ‘Olha, meu jovem. A mãe dela e eu trouxemos esta preciosa jovem ao mundo. Demos a ela todo o amor e cuidado que podíamos. E esperamos que você, através deste casamento, permita que ela continue sendo quem ela está destinada a ser. Você entende isso?’ É isso que todo pai quer dizer ao entregar sua preciosa filha ao altar.”

“E meu pensamento imediatamente se voltou para todas as 12.000 pessoas que trabalham para nós. Elas são os filhos preciosos de alguém. Não são contadores, engenheiros, recepcionistas, operários, meros números, subordinados diretos. São os filhos preciosos de alguém, confiados aos nossos cuidados. E teremos um impacto profundo em suas vidas.”

Estas são as palavras de alguém que enxerga a vida com novos olhos. Ele chamou isso de uma mudança de um modelo de negócios centrado no “eu” para um modelo centrado no “nós”.

Bob Chapman não está sozinho nessa mudança em direção a uma abordagem mais humana nos negócios. Há um movimento crescente em torno do capitalismo consciente. Mas a história da Barry-Wehmiller, para mim, é a prova mais convincente de que existe um potencial real para harmonizar o bem-estar dos acionistas com o bem-estar no ambiente de trabalho.

Acredito que agora, mais do que nunca, nossa sociedade está preparada para abraçar a visão de Bob Chapman de negócios como uma empresa que se importa. As pessoas falam sobre querer equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mas o que eu acho que todos nós realmente queremos é uma vida cheia de significado e propósito e ótimos relacionamentos – inclusive no trabalho –, que, obviamente, ocupa uma grande parte das nossas horas de vigília. A abordagem humana de Bob Chapman nos negócios oferece o que eu acredito ser uma nova estrela guia, um modelo para vidas profissionais mais significativas e satisfatórias. O sucesso da Barry-Wehmiller prova que isso não é um ideal utópico.

Em março deste ano, após 50 anos como CEO da B-W, Bob Chapman faleceu. Sua medida pessoal de sucesso era “a maneira como impactamos a vida das pessoas”. Eu me incluo entre as vidas impactadas e tenho certeza de que o efeito multiplicador da dedicação de Bob Chapman às pessoas está apenas começando. Poucos exemplos de capitalismo consciente são tão concretos quanto o seu.

*Matthew Richey é CFO terceirizado da região de Seattle, especializado em trabalhar com líderes alinhados a valores. O artigo foi traduzido especialmente para o Marcas que se Importam.

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