Wayne Visser, o “pracademic” que trocou sustentabilidade por regeneração 

O pesquisador britânico propõe uma mudança profunda na forma como as empresas entendem seu papel no mundo: não basta reduzir impactos; é preciso criar as condições para que pessoas, comunidades e ecossistemas prosperem. 

Composição surrealista tridimensional com acabamento tátil. Uma figura humana recortada em papel kraft, com chapéu de palha e luvas de tecido, cuida de um jardim em miniatura que nasce de dentro de uma engrenagem de metal desmontada; ao redor, pessoas menores de papel colorido crescem como plantas, cada uma em seu ritmo, conectadas por raízes de fios de algodão. Um olho estilizado (identidade visual da Marcas que se Importam) integrado sutilmente à composição, discreto entre as folhas do jardim. Fundo texturizado preto fosco com aspecto de veludo, luz quente vinda de cima. Paleta de cores da marca MQSI. Canto superior direito limpo para aplicação do logo. Sem textos, letras ou tipografia na imagem.

Há autores que nos ajudam a organizar o que já sabemos. Outros mudam as perguntas que fazemos. Wayne Visser pertence ao segundo grupo. Como um legítimo “pracademic”, termo que ele próprio carrega para definir quem transita com o mesmo rigor entre a pesquisa acadêmica em Cambridge e a realidade nua e crua das salas de conselho das grandes corporações, Visser passou as últimas três décadas observando uma contradição incômoda: nunca se falou tanto em sustentabilidade dentro das empresas, com seus relatórios robustos e metas ESG, e, no entanto, continuamos operando sob a mesma lógica linear que gerou as nossas maiores crises.

A grande virada que a obra de Visser provoca não é um ajuste de metas, mas uma mudança de lente. Ele nos mostra que a responsabilidade social tradicional, o que ele chama de CSR 1.0, faliu por ser essencialmente periférica. Criou-se o hábito de enxergar a sustentabilidade como um departamento isolado, um puxadinho corporativo focado em filantropia, gestão de danos ou conformidade regulatória. A pergunta clássica sempre foi: “O que a empresa faz de bom além do negócio para mitigar seus impactos?”. Visser inverte o vetor. A questão agora é: “O próprio modelo de negócio é capaz de regenerar o ecossistema onde atua?”.

É aqui que a sustentabilidade encontra o seu limite conceitual e cede espaço para a regeneração: o caminho dos negócios regenerativos.

Do “menos pior” ao florescimento

Por muito tempo, o teto da ambição corporativa foi o “doing less harm” (fazer menos mal): emitir menos carbono, reduzir o desperdício e mitigar o risco. Tudo isso continua sendo urgente, mas Visser argumenta que estabilizar um sistema degradado não o cura. Uma floresta não prospera apenas porque paramos de desmatá-la; ela prospera quando suas condições vitais são restauradas a ponto de ela voltar a gerar vida por conta própria.

No ambiente empresarial, a lógica é idêntica. A sustentabilidade tradicional tenta gerenciar limites e administrar a escassez. A regeneração, defendida por Visser em sua obra conceitual Thriving, busca criar as condições para o florescimento. Mudar a rota do mercado significa migrar de uma economia baseada na extração e no descarte para um ecossistema que funciona como a própria natureza: onde o conceito de resíduo inexiste porque tudo serve de insumo para o próximo ciclo. Não por acaso, seu documentário Closing the Loop tornou-se uma referência global em economia circular; ele não discute como tornar o lixo “menos ruim”, mas questiona por que aceitamos desenhar produtos que preveem o descarte.

A anatomia do florescimento (Thriving)

Para que essa transição deixe de ser um manifesto romântico e se torne estratégia pura, Visser decodifica a regeneração por meio de pilares interconectados que redesenham a cultura organizacional:

  • Propósito e paixão: o lucro deixa de ser o objetivo final e assume seu papel real: o oxigênio que viabiliza a operação. O negócio passa a existir para resolver um problema real do mundo, movido por uma liderança engajada humanamente, e não apenas por obrigação métrica.
  • Desempenho sistêmico: empresas regenerativas mudam o que medem. O sucesso financeiro é indissociável da saúde dos ecossistemas e do valor social gerado nas comunidades. Se a contabilidade ignora as externalidades negativas, ela está medindo uma ilusão.
  • Parcerias e conexão planetária: desafios complexos como a crise climática não cabem no balanço de uma única organização. Visser desconstrói a ilusão da empresa isolada; o mercado do futuro opera em rede. O planeta deixa de ser um “stakeholder” em uma lista de prioridades para ser reconhecido como a infraestrutura que permite a existência de qualquer economia.

O líder como jardineiro

Toda essa transformação exige uma nova postura de liderança. O modelo de comando, controle e do líder-herói centralizador perde o sentido diante da complexidade sistêmica. A liderança regenerativa proposta por Visser opera por meio de uma metáfora muito mais orgânica: o líder deve agir menos como o engenheiro de uma máquina e mais como o jardineiro de um ecossistema.

O jardineiro sabe que não pode forçar uma semente a crescer puxando suas folhas; o seu papel é preparar o solo, garantir os nutrientes, podar os excessos e criar as condições ideais para que a vida se desenvolva. Transposto para o ambiente de negócios, o líder regenerativo é aquele que fomenta uma cultura de inovação orientada por propósito, estimula o pensamento sistêmico e conecta pessoas em prol de uma visão de futuro que inspira, em vez de paralisar — traços centrais de uma liderança consciente e regenerativa.

O grande legado de Wayne Visser para as marcas contemporâneas não é um chamado ao otimismo ingênuo, mas sim a uma esperança estritamente ativa e estratégica. Olhar para os dados da crise climática e social sem negar sua gravidade, mas escolher redesenhar as regras do jogo. Afinal, o futuro não será das marcas que aprenderam a causar menos impacto negativo no planeta, mas daquelas que se tornarem indispensáveis para que a vida, as pessoas e a economia voltem a prosperar.

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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