Kate Raworth ensina a diferença entre crescer e prosperar

A economista britânica criadora da Economia Donut propõe substituir a pergunta ‘como crescer’ por ‘como prosperar’, reconciliando as necessidades humanas com os limites do planeta. 

Composição surrealista tridimensional com acabamento tátil. Uma escada de concreto subindo em linha reta se quebra no alto e, a partir da ruptura, se transforma em uma espiral de tecido trançado que gira em ciclos, com folhas, flores e frutos de papel em diferentes estágios — expansão, pausa e regeneração. Uma pequena figura feminina recortada em papel kraft, em postura de yoga, equilibra-se no centro da espiral. Um olho estilizado (identidade visual da Marcas que se Importam) integrado sutilmente à composição, discreto em uma das folhas. Fundo texturizado verde-sálvia com aspecto de linho, luz natural suave vinda de cima. Paleta de cores da marca MQSI. Canto superior direito limpo para aplicação do logo. Sem textos, letras ou tipografia na imagem. Formato horizontal 1536px de largura.

Algumas ideias chegam até nós como respostas. Outras, como perguntas. Meu encontro com a obra da economista britânica Kate Raworth aconteceu pela segunda via.

Nos últimos anos, transitando entre o jornalismo, a gestão ambiental e as salas de yoga, percebi que a maioria das discussões sobre sustentabilidade e mudanças climáticas esbarrava sempre na mesma lógica: produzir mais, acelerar mais, expandir mais. O crescimento econômico linear aparecia quase sempre como um consenso silencioso, um dogma raramente colocado em questão.

Uma pergunta insistente passou a me acompanhar: crescer para quê?

Vivemos em um mundo que acumula riqueza e tecnologia em escala inédita. Ao mesmo tempo, convivemos com desigualdades profundas, perda acelerada da biodiversidade e um esgotamento visível, tanto do planeta quanto humano. Foi nesse cenário de paradoxos que a provocação de Kate me fisgou: a economia convencional transformou o Produto Interno Bruto (PIB) de um indicador de atividade em um objetivo final. Passamos décadas associando sucesso a curvas ascendentes, esquecendo que o planeta possui limites físicos intransponíveis e que milhões de pessoas ainda carecem do básico.

Para mudar o rumo dessa história, ela nos convida a trocar a pergunta clássica “Como fazer a economia crescer?”, por uma muito mais vital: “Como fazer a humanidade prosperar?”. Como bem resume a autora, uma economia saudável deve ser projetada para prosperar, não para crescer.

A bússola do século XXI

Para materializar essa mudança de perspectiva, Kate Raworth criou a Economia Donut (Doughnut Economics), um modelo visualmente simples, mas profundamente disruptivo. Imagine a silhueta de uma rosquinha, delimitada por dois círculos concêntricos:

  • O círculo interno (a fundação social): representa o piso mínimo para uma vida digna. Inclui o acesso a alimentação, água, moradia, saúde, educação, energia, igualdade de gênero e participação política. Abaixo dessa linha, há privação humana.
  • O círculo externo (o teto ecológico): representa as fronteiras planetárias que não podemos ultrapassar sob o risco de comprometer a estabilidade dos sistemas que sustentam a vida na Terra (como o equilíbrio climático e a biodiversidade).

O “Donut” propriamente dito é o espaço seguro e justo entre esses dois círculos. É o território onde as necessidades humanas são plenamente atendidas sem que a capacidade regenerativa do planeta seja estourada.

O que mais me atrai nessa proposta não é o desenho em si, mas a sua função. O Donut não funciona como uma receita pronta ou um modelo econômico rígido, mas sim como uma bússola. Ele desloca a nossa obsessão pelos números e recoloca no centro o que realmente importa: a qualidade das relações que construímos entre economia, sociedade e natureza. Em tempos de crises simultâneas, direção importa muito mais do que respostas rápidas.

O equilíbrio entre os ciclos e os limites

Há algo na Economia Donut que transborda a teoria econômica e dialoga diretamente com a nossa dificuldade contemporânea de reconhecer limites. Fomos colonizados por narrativas de expansão permanente. Empresas, mercados e carreiras precisam crescer sem parar. Até o desenvolvimento pessoal e as práticas de bem-estar parecem ter sido capturados pela lógica da performance.

Confesso que eu mesma me pego, por vezes, engessando metas rígidas: encaixar a yoga três vezes por semana (sendo uma delas a hormonal), meditar em dias exatos, cumprir os treinos de força e aeróbico… Mas a vida não funciona em linha reta. Tanto a prática do yoga quanto a gestão ambiental nos ensinam a resgatar a natureza como o nosso aprendizado mais refinado. Na Terra, tudo acontece em ciclos. Há momentos de expansão, mas também de pausa, recolhimento e regeneração. Ecossistemas saudáveis não perseguem o crescimento infinito; eles buscam o equilíbrio.

A potência do Donut reside em nos lembrar que a verdadeira prosperidade não floresce na escassez, mas também sufoca no excesso. Ela exige discernimento, escolhas conscientes e a compreensão profunda sobre o que significa suficiente.

Da metáfora à prática

Como facilitadora, aprendi que os processos de transformação real não começam quando temos todas as certezas, mas quando começamos a fazer perguntas melhores. Se o crescimento linear não é o destino, o florescimento e a capacidade de sustentar a vida em todas as suas dimensões passam a ser o norte.

Essa transição não é uma metáfora bonita. Cidades como Amsterdã adotaram oficialmente a Economia Donut como ferramenta de planejamento urbano, orientando decisões concretas sobre habitação, economia circular e políticas públicas de longo prazo e tornando-se referência em economia regenerativa e desenvolvimento sustentável.

O maior ensinamento que levo de Kate Raworth é uma mudança de orientação. Em um século marcado pela urgência climática e por uma pressa difusa que nos faz correr sem saber exatamente para onde, reaprender a distinguir movimento de direção é o primeiro passo para desenhar um futuro em que possamos, finalmente, prosperar.

Fontes consultadas

Perfil Oficial de Kate Raworth no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/kate-raworth-188399291

Website Oficial de Kate Raworth: https://www.kateraworth.com/

Sobre a Autora – Kate Raworth: https://www.kateraworth.com/about/

Doughnut Economics Action Lab (DEAL): https://doughnuteconomics.org/

TED Talk de Kate Raworth: https://www.ted.com/speakers/kate_raworth

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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