Joel Makower e o custo do silêncio corporativo

A partir de uma conversa com o Marcas que se Importam, Joel Makower, jornalista e fundador do Trellis Group, revela por que os maiores desafios da sustentabilidade hoje são menos técnicos e muito mais humanos. 

Composição surrealista tridimensional com acabamento tátil. Uma árvore esculpida em concreto claro se curva sob o vento sem quebrar, com raízes de fios de cobre se espalhando por uma base de areia fina — metáfora da resiliência como transformação, e não como rigidez. Nos galhos, pequenas figuras humanas recortadas em papel kraft se seguram e conversam entre si. Ao lado, uma muralha de tijolos de papel rachada desmorona levemente. Um olho estilizado (identidade visual da Marcas que se Importam) integrado sutilmente à composição, como uma das folhas da árvore. Fundo texturizado verde-musgo profundo com aspecto de feltro, luz recortada vinda do alto. Paleta de cores da marca MQSI. Canto superior direito limpo para aplicação do logo. Sem textos, letras ou tipografia na imagem. Formato horizontal 1536px de largura.

A sustentabilidade raramente é tratada como o que de fato é: um fenômeno integrado, que atravessa as dimensões social, cultural, econômica e ambiental simultaneamente. Mesmo entre profissionais do setor, é comum que o debate se concentre no aspecto técnico das transformações, como se o principal obstáculo para acelerar a transição fosse de natureza operacional. 

As perguntas que dominam o campo refletem esse recorte: como escalar a redução de emissões? Quem financia a transição para energias limpas? Como tornar as cadeias produtivas globalmente eficientes? São questões legítimas, mas que tendem a colocar o foco no processo, deixando em segundo plano uma camada igualmente decisiva: a humana, que envolve cultura organizacional, liderança e comunicação.

Joel Makower e outros tantos profissionais que vêm compondo as publicações do Marcas que se Importam têm me ajudado a enxergar que o ponto-chave da questão, hoje, está em outro lugar.

Há mais de 35 anos, o jornalista e fundador do Trellis Group acompanha os bastidores do mundo corporativo. Joel Makower viu a sustentabilidade migrar das margens ativistas para o coração das estratégias das maiores empresas do mundo. Essa trajetória dá peso ao que vem a seguir: o que mais me fascina em suas reflexões não é uma nova metodologia de gestão ou uma métrica inédita de ESG. É a lucidez de quem entendeu que a sustentabilidade avança ou retrocede menos pela falta de soluções tecnológicas e mais pela força, ou fragilidade, das narrativas que construímos.

Uma das grandes sacadas de Makower foi trazer o mercado para o centro do debate, integrando os desafios socioambientais à realidade dos negócios. Ele sabe que transformações estruturais dependem do engajamento de quem decide e lidera. Por isso, sua obra nos provoca a encarar a sustentabilidade como cultura e estratégia viva, uma verdadeira lente para decodificar o futuro, e nunca apenas um checklist de conformidade.

Essa perspectiva fica nítida quando ele reconceitua a palavra da moda: resiliência. Durante décadas, as corporações foram obcecadas pela eficiência máxima, eliminando estoques, cortando redundâncias e operando no limite absoluto. O problema é que um sistema “hiperotimizado” é também “hiperfrágil”.

Para Makower, as empresas confundiram “aguentar o tranco” com ser resiliente. O que a maioria busca é a robustez: a habilidade de blindar o sistema para que ele volte a ser o que era antes da crise. O problema é que o antigo “normal” não existe mais. A resiliência real não é estática; é transformação viva, a capacidade de evoluir e redesenhar rotas no meio do caos. Trazendo isso para a minha vivência na facilitação e no yoga, fica nítido que o apego a estruturas rígidas é o que nos torna frágeis. A segurança real não vem de paredes intransponíveis, mas da agilidade em mudar de postura quando o chão se move.

No entanto, a provocação mais contundente de Makower está em suas leituras sobre a comunicação. Para ele, o maior risco climático atual não é o negacionismo, mas o silêncio.

Vivemos um paradoxo: embora pesquisas mostrem que a preocupação das pessoas com o clima continua alta, muitas marcas silenciaram suas conversas públicas para evitar polarizações. Mas o silêncio nunca é neutro. Quando lideranças e instituições confiáveis se calam, elas comunicam abandono e abrem espaço para que o ruído radical domine a narrativa. As empresas deixam de comunicar suas ações de transição por medo, sem perceber que o mercado quer recompensar quem age, mas simplesmente não sabe quem são os atores reais por falta de visibilidade.

O próprio Makower me confirmou esse diagnóstico em uma conversa recente pelo LinkedIn. Para ele, a omissão cobra um preço alto da cultura organizacional: “Quando as empresas deixam de contar suas histórias, correm o risco de que outros façam isso por elas. Mesmo nesta era de forte resistência política, as companhias arriscam perder o controle de suas narrativas não só externamente, mas também, o que é igualmente importante, junto aos próprios colaboradores. E isso pode dificultar muito as coisas quando, inevitavelmente, os ventos mudarem e as empresas se virem obrigadas a ter uma boa história para contar”, avalia.

Curiosamente, esse recuo na comunicação não significa que a pauta parou. Makower revela uma realidade que está passando despercebida: a sustentabilidade de bastidor continua avançando. Segundo o relatório The State of the Sustainability Profession in 2026, publicado pela sua empresa, 75% das companhias com faturamento acima de US$ 1 bilhão mantiveram ou aumentaram suas equipes de sustentabilidade. O paradoxo é que 63% delas reduziram ou repensaram sua comunicação. Na prática, muitas corporações estão fazendo mais, porém dizendo menos — fenômeno que vem sendo chamado de greenhushing.

Isso desloca a sustentabilidade do campo técnico para o campo cultural. O que estamos enfrentando não é uma crise de soluções — afinal, a agricultura regenerativa, a economia circular e as tecnologias de descarbonização já estão aqui —, mas uma crise de imaginação e de coragem.

Essa urgência fica evidente em outro artigo potente dele, Sustainability Leadership in a Time of Crisis and Despair. Escrito em um contexto de pressões políticas, Makower lança a pergunta essencial: como liderar a sustentabilidade quando o cenário parece piorar?

A resposta dele está em sete qualidades profundamente humanas que definem a liderança do agora:

  • Resiliência visionária: Viver o “Paradoxo de Stockdale” — encarar os fatos mais difíceis da realidade, sem ilusões, mas manter a convicção inabalável de que vale a pena continuar no longo prazo.
  • Engajamento profundo: Em tempos de crise, os líderes não se escondem. Transparência e diálogo com funcionários, clientes e comunidades tornam-se ainda mais vitais.
  • Capacidade de adaptação: Romper com a rigidez, revisando estratégias e abandonando o que é superficial para concentrar energia naquilo que gera impacto.
  • Apoio contínuo à inovação: Resistir à tentação de cortar orçamentos de projetos sustentáveis sob a justificativa de risco em momentos de instabilidade.
  • Empatia e ética: Manter um compromisso explícito com a inclusão e a responsabilidade social, combatendo o agravamento das desigualdades.
  • Foco no longo prazo: Lembrar que os grandes benefícios da sustentabilidade raramente se encaixam na pressa do próximo balanço trimestral.
  • Otimismo inabalável: Não uma positividade ingênua, mas a decisão consciente e madura de continuar agindo. Para quem escolheu esse caminho, desistir não é uma opção.

Nenhuma transformação humana se sustenta apenas com relatórios, dados áridos ou metas para 2050. Ela depende de histórias e de atitudes capazes de conectar o presente ao futuro que desejamos habitar. E ninguém se mobiliza por um futuro que não consegue sequer imaginar.

Ao conhecer mais sobre o Joel Makower, vi que ele é profundo ao tratar da nossa capacidade de seguir em frente quando os desafios parecem grandes demais. Ele escreve sobre liderança, empatia ética e a importância de sustentar o passo em um mundo obcecado pelo imediatismo.

Em um momento em que a agenda ESG oscila entre promessas vazias e o desespero paralisante, Makower nos oferece um solo firme. Nem otimismo ingênuo, nem resignação. Apenas a convicção madura de que os problemas são reais, o cenário é complexo, mas continuar agindo ainda é a única escolha que faz sentido. E continuar contando essas histórias também.

Fontes consultadas

https://www.makower.com/

https://trellis.net/article/sustainability-leadership-in-a-time-of-crisis-and-despair

https://trellis.net/article/biggest-climate-risk-right-now-isnt-denial-its-silence

https://trellis.net/article/resilience-rebrand-what-sustainability-always

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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