A aposta de Mariano Cenamo era fazer da floresta em pé um negócio 

Fundador do Idesam, Mariano Cenamo passou duas décadas provando que floresta em pé podia virar renda, emprego e negócio. Uma aposta que hoje molda a bioeconomia amazônica e sobrevive nas pessoas que ele deixou para continuá-la.

Ele tinha 23 anos quando decidiu ficar. Formado em Engenharia Florestal pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Mariano Colini Cenamo era paulistano, jogava rugby e havia chegado à Amazônia para um estágio, incentivado por Virgílio Viana, ex-professor que na época comandava a Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas. O plano era passar uma temporada. Ficou mais de duas décadas, construindo o que hoje se chama de bioeconomia amazônica.

Mariano morreu em 10 de julho de 2026, aos 46 anos, depois de enfrentar um câncer de intestino. Deixou como legado uma das instituições mais respeitadas da conservação amazônica: o Idesam, que ele fundou em 2004. Deixou também uma tese que, à época, soava quase como provocação: a de que proteger a floresta não significava afastá-la das pessoas, mas criar economia dentro dela.

De uma fazenda na Austrália a Manaus

A virada começou longe da Amazônia. Ainda na faculdade, Mariano trancou a matrícula para trabalhar numa fazenda de uva na Austrália e melhorar o inglês. Foi lá que se interessou por crédito de carbono, um tema que, no Brasil dos anos 2000, praticamente não existia fora de centros de pesquisa isolados. Voltou decidido a entender como valorar economicamente os serviços que a floresta presta à humanidade.

Em 2003, veio o estágio na Amazônia. Em 2004, aos 23 anos, a mudança definitiva para Manaus e a fundação do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia). Não havia estrutura, nem sede, nem equipe. Mariano se descrevia, brincando, como um “ING”: um indivíduo não governamental carregando um computador na mochila.

O mercado é aliado da conversação

Nos primeiros anos, o Idesam foi, como relembram registros da época, uma organização modesta, de recursos escassos, mas de ambição desproporcional ao tamanho. Enquanto parte do ambientalismo mais tradicional via com desconfiança qualquer aproximação entre floresta e negócios, Mariano apostava no caminho contrário, na ideia de que floresta em pé podia virar negócio: acreditava que o mercado, bem estruturado, podia ser aliado da conservação, e não seu adversário.

Essa aposta o levou a se aproximar de discussões que muitos colegas evitavam, como as ligadas à Lei de Informática e ao fomento de cadeias produtivas na Zona Franca de Manaus. Não era o caminho mais confortável para quem vinha do movimento ambientalista. Era, para ele, o caminho mais honesto com a realidade de quem vive na floresta.

Duas décadas de pontes

Ao longo de mais de 20 anos, Mariano ajudou a erguer um ecossistema inteiro em torno da bioeconomia amazônica:

  • O Idesam, onde atuou como cofundador e diretor de Novos Negócios, hoje presente em diferentes frentes, da governança territorial aos negócios de impacto.
  • A AMAZ Aceleradora de Impacto, criada em 2021, hoje a maior aceleradora e investidora de negócios de impacto do norte do país, fundada com a ambição declarada de ver nascer, um dia, um unicórnio amazônico.
  • O Fiinsa, festival de investimento de impacto e negócios sustentáveis que se tornou ponto de encontro de empreendedores, pesquisadores e investidores que apostam em uma economia própria para a região.
  • O Programa Carbono Neutro, que completa 15 anos transformando restauração florestal em renda e floresta em pé.
  • A Zôma, iniciativa mais recente do instituto, voltada à bioinovação a partir da biodiversidade amazônica.

É possível que a ponte mais duradoura que Mariano construiu não apareça em nenhum organograma. Foi a parceria de décadas entre o Idesam e o povo Paiter Suruí, e a amizade pessoal com o cacique-geral Almir Suruí. Em nota de pesar, a Associação Metareilá, que representa o povo Suruí, destacou o compromisso de Mariano com a causa indígena e a valorização da floresta e de seus povos como parte central de seu legado.

O trabalho de Mariano não passou despercebido fora da Amazônia. Em 2022, foi eleito Empreendedor Social do Ano na categoria Inovação em Meio Ambiente, prêmio promovido pela Folha de S.Paulo. Foi reconhecido pela Ashoka, maior rede global de empreendedores sociais, e esteve entre os nomeados da lista “100 Inovadores pelo Clima”. Mais do que troféus, o que esses reconhecimentos registram é uma trajetória rara: a de alguém que soube transformar convicção pessoal em instituição, e instituição em movimento.

O que ele via, que muitos ainda não viam

Mariano tinha uma frase que resume boa parte do que passou a vida defendendo: a de que era possível enxergar um futuro em que transformar floresta em pé em renda, emprego e prosperidade passasse por uma nova geração de negócios. Não era otimismo ingênuo, era a conclusão de quem, havia duas décadas, testava essa hipótese na prática, entre acertos, resistências e um sistema financeiro que, em suas próprias palavras, ainda entregava recursos devagar demais para quem mais precisava deles.

Paola Bleicker, diretora executiva do Idesam, escreveu um mês após a morte de Mariano que seu legado não ficaria apenas na memória, continuaria acontecendo, nos projetos que ele ajudou a criar e, sobretudo, nas pessoas que formou e nas quais decidiu confiar antes mesmo que elas percebessem o próprio potencial.

É talvez a melhor forma de medir o tamanho de uma vida como a de Mariano Cenamo: não pelo que ele construiu sozinho, mas pela quantidade de gente que ele deixou capaz de continuar construindo.

Fontes consultadas 

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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