Ela cuida do corpo pela acupuntura, yoga e aromaterapia, ele trata pacientes do SUS com medicina antroposófica. Casados e pesquisadores, Paula Furlan e Gustavo Nunes de Oliveira dividem um mesmo compromisso, o de fortalecer, não anular, o que a pessoa sente.

“O medicamento antroposófico não seda, não dopa, não embota. Ele fortalece a vitalidade, e a pessoa melhora porque se fortalece, não porque anulou o que sentia.” A frase é do médico Gustavo Nunes de Oliveira, mas poderia ter saído da boca da mulher dele, Paula Giovana Furlan. Os dois chegaram à mesma ideia por caminhos diferentes, ele pela medicina, ela pelo corpo, e hoje dividem não só a casa em São Carlos, interior de São Paulo, mas um projeto de terapias integrativas que leva esse jeito de cuidar para dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), via Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Dois caminhos até a antroposofia
Paula é terapeuta ocupacional de formação, com mestrado e doutorado em Saúde Coletiva e um pós-doutorado recente (2025) em Psicologia Institucional, na interface com o yoga. Tem ainda formações complementares em acupuntura, aromaterapia e fitoterapia clínica. Conta que sempre foi uma pessoa que buscou plantas, desde criança, influenciada pelo que observava da avó benzedeira. Nos últimos dez anos, sua ênfase profissional principal é o yoga.
Gustavo é médico formado pela Unicamp, com especialização em Medicina de Família e Comunidade, mestrado e doutorado em Saúde Coletiva e especialização em fitoterapia clínica. Fez a formação complementar em medicina antroposófica em 2017 e 2018. Hoje é professor adjunto do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em dedicação exclusiva, e cursa agora uma formação em oncologia antroposófica.
Antes de São Carlos, os dois foram professores da Universidade de Brasília. Foi em Brasília, aliás, que Paula teve o primeiro contato mais próximo com a Weleda, numa farmácia da marca. “Eu já tinha visto um sabonete antes, achei interessante”, lembra. “Mas me aproximei mais quando descobri que existia um lugar só com esses produtos.” Foi também em Brasília que ela resolveu, com medicamentos manipulados naquela farmácia, um problema de saúde que não vinha respondendo a outros tratamentos. Em 2016, a família se mudou para São Carlos, e Gustavo conseguiu redistribuição para a UFSCar.
O que a medicina antroposófica propõe, segundo a definição do próprio Gustavo, é uma racionalidade médica surgida no início do século 20 na Europa, a partir dos estudos de Rudolf Steiner e da médica holandesa Ita Wegman. Considera o ser humano como corpo, mente e espírito, e por isso amplia tanto o diagnóstico quanto o tratamento, incluindo terapias não farmacológicas como euritmia, arteterapia e massoterapia. Para se tornar médico antroposófico é preciso primeiro ser médico, com formação acadêmica completa. É uma camada complementar, não um substituto.
O que os une
Gustavo resume a avaliação médica antroposófica em três eixos, o pensar, o sentir e o querer/agir. “A gente avalia o organismo. Na medicina antroposófica não tem separação entre mente e corpo, então a função orgânica se expressa de um jeito no sentir, de outro no querer, de outro no pensar. O nosso objetivo é um pensar claro, um sentir com menos medo, um querer livre.”
Paula chega numa formulação parecida a partir do yoga, que fala em camadas do corpo (físico, de respiração, mental, emocional e espiritual). “A gente entende que os processos de adoecimento começam nos planos mais sutis e vão para os mais físicos. Se a pessoa adoece no corpo físico, é porque já havia adoecimento em outros níveis também.” Ela descreve seu trabalho como um tipo de coerência entre o que a pessoa sente, pensa e faz, buscada não pela via racional, mas pelo sensorial, pelo corpo, pela expressão artística.
É essa mesma ideia, dita de dois jeitos diferentes, que sustenta o projeto que os dois ajudaram a construir juntos.
_ “O nosso objetivo é um pensar claro, um sentir com menos medo, um querer livre” _
Um ambulatório dentro do SUS
Gustavo já tinha, desde 2018, a intenção de montar um atendimento antroposófico em São Carlos. O obstáculo era o acesso a medicamentos, tradicionalmente caros e sem cobertura de convênio. A virada veio em 2019, com o surgimento da FarmaWegman, uma farmácia social na comunidade Monte Azul, em São Paulo, criada por financiamento coletivo para receber doações de insumos da indústria e repassar aos pacientes por faixa de desconto social, de 20% a 100%.
Depois de um parêntese de dois anos liderando a vigilância epidemiológica da Covid-19 na UFSCar, Gustavo retomou o projeto e, em agosto de 2023, abriu o ambulatório de terapêuticas integrativas na Unidade Saúde Escola da universidade, contratualizado com a rede SUS de São Carlos. Reúne quatro frentes lideradas por docentes-pesquisadores: medicina antroposófica com Gustavo Nunes de Oliveira, medicina chinesa com José Nelson Martins Diniz, yoga com Paula Giovana Furlan e fitoterapia com Gerson Jhonatan Rodrigues.
A Weleda é a principal doadora de insumos farmacêuticos para a FarmaWegman, que por sua vez abastece semanalmente o ambulatório da UFSCar, numa cadeia que já soma mais de R$ 1 milhão em medicamentos doados. “Se não fosse a parceria com a Weleda, a gente não conseguiria abrir o ambulatório”, diz Gustavo. “No SUS eu não posso impor custo ao paciente, e fazer pesquisa com o paciente comprando o próprio medicamento seria impossível.”
Hoje o ambulatório acompanha cerca de 200 pacientes. Em 2023, quando começou, recebia de um a dois encaminhamentos por mês. A fila de espera atual já chega a cerca de quatro meses, e todos os serviços da rede SUS de São Carlos encaminham pacientes, incluindo o Hospital Universitário da UFSCar. Uma prescrição típica, com duas fórmulas manipuladas, custa em torno de R$ 350, algumas ultrapassam R$ 1.000 se o paciente precisasse comprar por conta própria.
Um caso, em detalhe
Paula lembra de uma paciente que chegou até ela há cerca de dois anos, por volta dos 35 anos, com muita rigidez muscular, dor de ATM e enxaqueca recorrente. Por trás dos sintomas físicos havia um conflito familiar, principalmente com a mãe, e um padrão de manter as aparências no trabalho apesar do esgotamento. O tratamento combinou acupuntura, ventosa, massagem, automassagem e participação em grupos de yoga, com o óleo de arnica indicado para uso pessoal da paciente e o óleo de lavanda usado por Paula nas sessões.
“Foi um processo muito bonito”, conta. A melhora apareceu tanto no padrão de tensão e nas enxaquecas quanto na abertura emocional da paciente, que foi aos poucos construindo relações familiares menos conflituosas. Paula chegou a registrar o caso formalmente como relato de caso clínico.
Fortalecer, não medicar para sempre
Gustavo é cauteloso ao falar do próprio campo. Se define como pesquisador, não como defensor de nenhuma medicina em particular. “Eu sou um desconfiado por natureza. Eu quero ver funcionar e quero saber por que funciona.” Só prescreve o que tem segurança de que vai fazer mais bem do que mal, apoiado tanto em estudos clínicos publicados quanto no uso tradicional consolidado.
Um dos princípios que guia sua prática é não medicar de forma contínua. “Eu não passo remédio pra sempre. A gente faz intervalos, vê como evoluiu e trata a próxima camada. Não faz muito sentido, ao meu ver, um tratamento para sempre.” A meta, resume ele, nunca é anular o sintoma a qualquer custo, mas fortalecer a pessoa para que ela consiga seguir vivendo melhor, com ou sem doença.
É esse fio, o de fortalecer em vez de calar, que atravessa o atendimento de Paula e o ambulatório de terapias integrativas de Gustavo, e que também aparece, de outro jeito, no raio-X sobre a Weleda publicado nesta semana no Marcas que se Importam.
* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.





