Nude: Impacto como critério de decisão

Na Nude, produto, operação e narrativa funcionam de forma integrada — com a sustentabilidade orientando o próprio modelo de negócio.


Em um contexto em que sustentabilidade se tornou uma linguagem amplamente disseminada — nem sempre acompanhada de métricas e transparência —, a Nude organiza sua atuação a partir de um princípio mais direto: medir, expor e reorganizar o impacto ao longo da cadeia.

Colagem escultórica 3D surrealista de um ciclo circular formado por grãos de aveia, água e fibras têxteis esculpidos em texturas variadas (concreto, tecido woven, argila), representando economia circular e agricultura regenerativa. Olho estilizado da MQSI integrado discretamente à composição. Paleta de cores da marca, fundo sólido ou levemente texturizado, canto superior direito limpo para o logo. Sem texto na imagem.

Fundada em 2019 por Alex Appel e Giovanna Meneghel, a foodtech brasileira desenvolve alimentos à base de aveia como alternativa ao leite de origem animal. Desde o início, no entanto, a proposta vai além da substituição de categoria. A empresa se posiciona como parte de uma mudança mais ampla no sistema alimentar.

Esse direcionamento aparece nas escolhas operacionais. A Nude foi a primeira do setor na América Latina a calcular e estampar a pegada de carbono em seus produtos, considerando o ciclo completo — da matéria-prima ao pós-consumo. A lógica parte de um princípio que a própria empresa reforça: é preciso medir antes de comunicar impacto. Mais do que neutralizar por compensação, a proposta é tornar o impacto visível.

Cinco anos depois da fundação, a empresa lançou, em 2026, a quinta edição do seu “Não-relatório de Sustentabilidade” — desta vez em formato de edição especial de aniversário, referente ao ciclo de 2025. Hoje a Nude já opera em seis países da América Latina, com um time de quase 50 pessoas.

Um crescimento que já não é linha reta

Em 2024, o mercado de bebidas vegetais havia crescido 22% no Brasil, puxado sobretudo pela expansão da categoria de aveia. Em 2025, porém, esse movimento perdeu fôlego: a categoria recuou 7%, impactada pelo aumento de impostos em São Paulo — principal estado consumidor — e pela consequente saída de algumas marcas do mercado. Ainda assim, a subcategoria de bebidas à base de aveia seguiu em expansão, com alta de 17,5% no período, sinal de que o interesse por alternativas plant-based continua evoluindo dentro do próprio segmento, mesmo com a desaceleração geral da categoria. Bebidas vegetais seguem representando uma fatia pequena do mercado de leite no país, algo em torno de 2%.

A Nude manteve ritmo de expansão mesmo nesse cenário mais desafiador: lançou novos produtos ao longo do ciclo — como o Nude Tudão, o Barista Baunilha e o relançamento do Nudinho Chocolate — e apresentou o primeiro produto upcycled da linha, um cereal matinal desenvolvido a partir da biomassa de aveia que antes era descartada no processo de filtragem da bebida vegetal. A iniciativa rendeu à empresa o selo Upcycled — inédito no setor no Brasil — e uma premiação do Pacto Global da ONU pelo Big Food Redesign Challenge, promovido em parceria com a Ellen MacArthur Foundation.

Em paralelo, a pegada de carbono média dos produtos caiu de 0,54 kg de CO2e por quilo, em 2024, para 0,44 kg de CO2e por quilo, em 2025 — resultado de ajustes de formulação, revisões de embalagem e dados mais precisos sobre as fazendas de aveia fornecedoras. Já o total de emissões brutas cresceu no mesmo período, de 2.564,51 para 3.154,59 toneladas de CO2e, reflexo direto da expansão das operações e do portfólio. O contraste entre os dois indicadores resume o desafio que a própria empresa reconhece: crescer sem que o impacto ambiental cresça na mesma proporção.

O ponto central não está no crescimento isolado, mas no fato de ele ocorrer em paralelo à construção — e ao aprimoramento contínuo — de métricas de impacto. À medida que avança, a empresa também se torna mais capaz de quantificar e expor suas emissões, o que aproxima o discurso da evidência.

A escolha da aveia como decisão sistêmica

A base do portfólio — a aveia — é mais do que uma escolha de formulação. Parte de um diagnóstico: produtos de origem animal têm peso relevante nas emissões de gases de efeito estufa, e a substituição por alternativas vegetais pode atuar como uma das alavancas de redução.

Esse raciocínio orienta o desenvolvimento do portfólio: bebidas vegetais (original, barista, sabores), versões proteicas, itens culinários e, mais recentemente, iniciativas de reaproveitamento de resíduos da produção (upcycling), como o cereal lançado em 2025. Mais do que responder a tendências de mercado ou atributos nutricionais, a escolha pela base vegetal reflete uma tentativa de atuar sobre a própria lógica de consumo.

A leitura da empresa é que o sistema alimentar ocupa um papel central na crise climática — e que mudanças no padrão de consumo podem funcionar como uma das alavancas mais diretas de transformação.

Impacto traduzido em números

A operação da Nude se apoia em indicadores que permitem acompanhar o impacto em diferentes níveis — do produto à cadeia produtiva — e compará-lo com alternativas como o leite animal. Dados do Não-Relatório 2026 (ciclo 2025):

  • Cerca de 17 mil toneladas de CO2 potencialmente evitadas desde 2020 — 6.955,98 toneladas somente em 2025 — considerando a troca, por parte dos consumidores, de leite animal por bebida vegetal
  • Pegada média de 0,44 kg de CO2e por quilo de produto em 2025, ante 0,54 kg em 2024
  • 275 toneladas de embalagens colocadas no mercado em 2024, 100% compensadas
  • Uso de plástico vegetal de cana-de-açúcar nas embalagens
  • Mais de 23 milhões de litros de água poupados desde o início da operação, em comparação ao leite animal
  • Presença em 6 países da América Latina
  • 102,2 pontos na certificação do Sistema B — acima da média das empresas B brasileiras, do setor e de empresas do mesmo porte
  • Selo Upcycled inédito no Brasil, para o cereal desenvolvido a partir da biomassa de aveia

A empresa organiza essa mensuração em três níveis: produto (pegada por kg), operação (embalagem, logística, produção) e sistema (comparação com o leite animal). Ao estruturar os dados dessa forma, torna mais concreto aquilo que, em muitos casos, permanece abstrato.

A estratégia ambiental não se concentra em um único ponto. A Nude distribui sua atuação em diferentes etapas — da matéria-prima ao pós-uso —, o que permite identificar onde estão as principais emissões e atuar de forma mais direcionada. A lógica é tratar impacto como um sistema interdependente, e não como um conjunto de iniciativas isoladas.

Transparência como método

Em vez de um relatório tradicional, a Nude opta, pelo quinto ano consecutivo, por um “não-relatório de sustentabilidade” — um material visualmente atraente, de linguagem direta, que explicita decisões, custos e processos e inclui também falhas e “turbulências”. A escolha dialoga com o posicionamento da empresa, certificada como Empresa B, que pressupõe compromisso com transparência e impacto mensurável.

Além do formato alternativo, o documento revela um método. Ao expor dados — inclusive aquilo que ainda não está resolvido —, a empresa amplia o espaço para questionamento, comparação e acompanhamento público de sua evolução.

A Nude conecta diretamente consumo e clima. Parte de dados sobre aquecimento global, metas de redução de emissões e impacto do sistema alimentar para chegar a uma tese simples: mudar o padrão de consumo — especialmente reduzir produtos de origem animal — é parte da solução climática.

Nesse movimento, a marca se desloca de fornecedora de produto para mediadora de comportamento. A comunicação não se limita à conversão; busca também traduzir complexidade e ampliar a compreensão do consumidor sobre o impacto de suas escolhas.

Cultura interna como extensão

Os dados do último Não-Relatório indicam que a Nude tem hoje 52,1% do time formado por mulheres — parcela que sobe para 71% nos cargos de alta liderança (C-level). Entre os indicadores de raça, 21% do time é composto por pessoas pretas e pardas, com representatividade ainda baixa na liderança; e 12% se identificam como parte do público LGBTQIAPN+, uma redução em relação ao ciclo anterior, ainda que os índices sigam próximos à média nacional.

A composição reflete, em parte, a própria trajetória dos fundadores, Alex Appel e Giovanna Meneghel, que posicionam a construção de uma empresa diversa como parte do desenho do negócio — e não como uma agenda paralela.

Na prática, a Nude acompanha esses indicadores como parte da operação, ainda que reconheça a pauta social como um campo em desenvolvimento — a própria empresa admite estagnação, e em alguns casos retrocesso, na representatividade racial e LGBTQIAPN+ na liderança. O impacto, nesse caso, ultrapassa o produto e alcança a estrutura organizacional.

Coerência e limites

O modelo também levanta questões. À medida que cresce, a empresa conseguirá manter o mesmo nível de rastreabilidade? O preço limita o acesso? O consumidor acompanha a complexidade proposta?

A desaceleração do mercado de bebidas vegetais em 2025 acrescenta outra camada a essa pergunta: em um cenário mais adverso, com aumento de impostos e saída de concorrentes, a Nude optou por seguir investindo em novos produtos, em agricultura regenerativa e em certificações — em vez de recuar. É também aí que se testa a coerência de um discurso construído sobre transparência.

Há ainda uma tensão própria do posicionamento: ao defender transparência e influenciar o mercado, a Nude também se expõe a um nível maior de escrutínio. A proposta, no entanto, não é operar como exceção, mas contribuir para elevar o padrão do setor. Essas tensões não aparecem como desvios, mas como parte do próprio funcionamento do negócio. É esse compromisso com a transparência ESG que sustenta a credibilidade do modelo.

Nude e o Movimento Marcas que se Importam

A Nude é parceira do Movimento Marcas que se Importam e esteve presente na última edição do evento do movimento. A trajetória descrita neste raio X dialoga diretamente com pelo menos três dos oito princípios que orientam o Movimento:

  • Princípio 1 — conciliar propósito com lucro: mesmo em um ano de desaceleração da categoria, a Nude seguiu crescendo em faturamento e lançamentos, ao mesmo tempo em que reduziu sua pegada de carbono por produto — dissociando, na prática, crescimento e aumento proporcional de impacto.
  • Princípio 5 — relações mais éticas, transparentes e duradouras: o “não-relatório de sustentabilidade” é, em si, um exercício de transparência que expõe também o que ainda não foi resolvido — como a queda na representatividade LGBTQIAPN+ na liderança —, e não apenas os números favoráveis.
  • Princípio 6 — não apenas zerar impactos, mas regenerar: os investimentos em agricultura regenerativa junto a fazendas parceiras e o reaproveitamento de resíduos da produção de aveia no primeiro cereal upcycled do país mostram uma tentativa de ir além da neutralização, gerando valor a partir do que antes era descarte.

A empresa também tem ampliado sua atuação coletiva no setor: criou o movimento #MostraSuaPegada, que já reúne 35 empresas comprometidas em calcular e comunicar publicamente sua pegada de carbono, e integra a associação Base Planta, formada por marcas à base de plantas que atuam juntas — inclusive frente a concorrentes diretos — pela redução da desigualdade tributária entre bebidas vegetais e de origem animal. A Nude também esteve presente na COP29, em Baku, e projeta presença na COP30, em Belém.

Fonte consultada

Nude – Nº5 Não-relatório de sustentabilidade – Edição 2026/Ciclo 2025

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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