Fernanda Caloi: As respostas estão dentro da gente, não no ChatGPT

À frente da LALA Brasil, Fernanda Caloi trabalha para formar líderes que conheçam a si mesmos, cuidem das pessoas e entendam que transformar o mundo é, antes de tudo, uma construção coletiva.

Há decisões que exigem mais do que análise. Exigem coragem para sair do lugar conhecido, disposição para aprender e, às vezes, confiança em uma resposta que não está em nenhuma planilha. Fernanda Caloi conhece bem esse movimento.

Depois de dez anos no Google, onde construiu uma trajetória de reconhecimento e visibilidade, ela decidiu deixar a segurança de uma grande empresa para experimentar uma dinâmica completamente diferente em uma startup. Mais tarde, migrou para o setor social e chegou à LALA (Latin American Leadership Academy), organização sem fins lucrativos dedicada à formação de jovens líderes latino-americanos, onde hoje é CEO da operação brasileira.

A escolha, conta ela, teve uma dose importante de coragem. “Eu saí da zona de conforto e fiz esse salto de fé”, afirma. O que veio depois foram novos aprendizados, oportunidades e uma aproximação cada vez maior de um campo que, embora estivesse presente em sua vida desde cedo, não havia sido planejado como destino profissional.

Sua história sugere que liderança também é isso: reconhecer o que já não faz sentido, escutar o que pede mudança e ter disposição para construir outro caminho.

O impacto começa antes da escolha

Fernanda diz que sempre teve uma “veia mais voltada para o social e para a construção de comunidades voltadas ao impacto”. A origem dessa disposição está na própria família. Sua mãe é voluntária e diretora de ONGs desde que ela “se entende por gente”, quando a acompanhava nos fins de semana em eventos e no contato direto com populações que não tinham seus direitos básicos assegurados.

Na adolescência, esse interesse ganhou uma dimensão própria. Fernanda ajudou a criar a Muda-Mundo, uma rede que reunia pessoas interessadas em projetos sociais para encontros presenciais e trocas por e-mail. Criada no início dos anos 2000, a iniciativa chegou a reunir centenas de pessoas e deixou frutos que ela ainda reconhece hoje em profissionais que seguiram suas carreiras no campo do impacto.

Quando surgiu a oportunidade de trabalhar na LALA, portanto, havia uma história anterior. “A princípio, fiquei muito curiosa, mas confesso que não tinha planejado”, conta. O que a convenceu foi a combinação entre a missão da organização — desenvolver lideranças — e a identificação com seus fundadores. “Pessoas que têm valores e visão de mundo totalmente alinhadas com as minhas”, resume.

Mais do que uma mudança de setor, foi uma aproximação entre trabalho e aquilo que Fernanda já considerava importante na vida.

Impacto não é escolha, é responsabilidade

Para Fernanda, uma das primeiras mudanças de perspectiva é entender que toda atividade produz impacto, que pode ser positivo ou negativo, mas existe. “A gente tem que se esforçar para deixar esse mundo melhor do que quando chegamos”, afirma.

Essa compreensão também se aplica às empresas. Para ela, não basta olhar para o resultado final de um produto ou serviço sem considerar os recursos e as pessoas envolvidos em sua produção. “Na margem de lucro do produto que as empresas vendem, cadê a conta dos recursos naturais? Da saúde mental das pessoas? Da inspiração e do legado?”, questiona.

A provocação toca em uma questão central para Fernanda: empresas precisam olhar para toda a cadeia da qual fazem parte. Muitas pessoas não têm liberdade para escolher um trabalho alinhado aos seus valores porque precisam garantir a própria sobrevivência e a de suas famílias. Cabe, portanto, às organizações prestar atenção às políticas e às consequências de suas decisões sobre todos os envolvidos.

A discussão sobre impacto social e ESG avançou, reconhece. Mas, para ela, ainda estamos longe de uma sociedade que realmente considere as consequências de suas escolhas.

Fernanda procura levar essa responsabilidade também para a própria vida. Há cerca de dez anos, fundou com outras famílias uma comunidade sustentável no interior de São Paulo, em Atibaia, onde as primeiras pessoas passaram a morar em 2018. Foram anos de planejamento, mudanças na composição do grupo e construção coletiva até que o projeto se tornasse realidade. “É uma grande realização pra mim: trazer pra realidade algo que é um exemplo do que é possível fazer quando você tem iniciativa e planejamento”, diz.

É talvez aí que sua ideia de impacto ganhe uma dimensão especialmente concreta: não apenas defender uma possibilidade, mas experimentar na própria vida aquilo em que se acredita.

Liderar é também cuidar

A experiência em uma multinacional, em startups e agora em uma organização social mostrou a Fernanda que os contextos de liderança podem ser muito diferentes.

Em uma relação comercial, explica, existe uma dinâmica em que uma empresa pode escolher se importar ou não com o impacto que produz para além daquela venda. Em uma organização social, a lógica é outra: “o impacto está em toda decisão que você toma”.

Essa diferença altera também a relação com o próprio time. Para Fernanda, cuidar das pessoas deve estar no centro de qualquer liderança. No terceiro setor, isso se torna ainda mais importante porque os recursos são permanentemente limitados e as equipes trabalham no limite de suas possibilidades.

Há, nesse ponto, uma aprendizagem que atravessa todos os ambientes pelos quais passou: confiança se constrói entre pessoas. “Não é sobre sua marca, seu logo. Isso abre a porta, mas não mantém ela aberta”, afirma.

Fernanda diz se orgulhar das relações que conseguiu construir e que continuaram existindo mesmo depois que deixou as organizações que representava. No setor social, percebeu também que confiança demanda tempo. O ritmo é diferente, há mais burocracia e desconfiança, e as parcerias precisam ser construídas com cuidado.

Talvez por isso ela trate relações como algo que não pode ser reduzido a uma estratégia institucional. São vínculos que permanecem quando o cargo, a empresa ou o logo deixam de estar entre as pessoas.

Pertencer para construir junto

A experiência de construir uma comunidade sustentável também reforçou outra convicção: as pessoas precisam sentir que pertencem. “Essa sensação é vital pra nossa realização humana”, afirma. Para Fernanda, fazer algo sozinho não produz a mesma sensação de felicidade e preenchimento que perceber que uma realização alcançou outras pessoas. “Dividir a felicidade do que você consegue realizar com outras pessoas” é, para ela, uma das chaves da plenitude.

Essa dimensão coletiva está no centro de seu trabalho na LALA. Ao acompanhar jovens que querem transformar a realidade latino-americana, Fernanda percebe uma geração submetida a uma disputa inédita pela atenção.

Nascidos em meio à ascensão das redes sociais, esses jovens vivem uma tensão permanente entre o mundo virtual e o real. Precisam descobrir quem são em meio a inúmeras distrações e às promessas de caminhos rápidos para a fama e a influência. Por isso, ela considera que existe uma competência anterior a muitas outras: saber quem se é.

“A saúde mental não é negociável”, afirma. Para Fernanda, essa deveria ser uma prioridade de todos os que trabalham pela juventude e por uma sociedade melhor.

As respostas estão dentro

É nesse ponto que sua prática de meditação encontra sua visão de liderança. Para Fernanda, o principal ensinamento da meditação foi compreender que o autoconhecimento é a chave para uma vida livre e feliz. Saber quem se é ajuda a fazer melhores escolhas, dizer os melhores “sins” e “nãos”, aproximar-se de coisas que fazem bem, desenvolver empatia e encontrar felicidade no simples.

“A meditação me ensinou a procurar as respostas dentro de mim e não no ChatGPT”, brinca.

Mas a frase, além de divertida, revela uma convicção profunda. Fernanda não rejeita dados ou evidências — ao contrário. Diz que sua tomada de decisão é baseada em evidências. Mas reconhece que existe também um componente de intuição, que se torna mais acessível quando os sentidos são aguçados pela meditação e pelo silêncio.

Uma das ideias que melhor sintetizam sua maneira de liderar é: olhar para fora sem perder a capacidade de olhar para dentro. É esse o cerne da liderança consciente que ela pratica na LALA Brasil.

A coragem para deixar uma carreira consolidada. A disposição para construir comunidades. A preocupação com os impactos que ficam escondidos nas margens dos resultados. O cuidado com as pessoas. A confiança construída nas relações. A defesa da saúde mental. A escolha por transformar valores em experiências concretas.

Em diferentes momentos da vida, Fernanda parece voltar à mesma pergunta: que mundo estamos ajudando a construir com as nossas escolhas?bE sua resposta não está apenas no que ela defende. Está também no que escolheu fazer.

Fonte consultada

LALA Brasil (Latin American Leadership Academy) 

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