Jornalista, pesquisadora e fundadora do Instituto Desacelera, Michelle Prazeres passou os últimos dez anos observando o Brasil corporativo mudar de postura diante da saúde mental — e alerta que a próxima fronteira não é individual, mas cultural.

Michelle Prazeres começou a abordar a saúde mental no trabalho por volta de 2015, uma época em que, segundo ela, os conceitos ainda precisavam ser detalhados. “Eu tinha que explicar muito bem cada ideia”, lembra. Passada uma década, a jornalista e pesquisadora — fundadora do Instituto Desacelera, idealizadora da DesaceleraSP, da Escola do Tempo e do Dia sem Pressa, o primeiro festival de cultura slow do Brasil — vê um cenário bem diferente, mas ainda longe de ser resolvido. É esse cenário que coloca a saúde mental no trabalho no centro da conversa corporativa de 2026.
Em entrevista ao Marcas que se Importam, Michelle conta que de dez anos para cá o awareness (consciência) e a sensibilização das pessoas para esse tema avançaram muito. “Antes muitos achavam que era capricho “, diz. Para ela, hoje a maior parte das pessoas já entende a relação entre condição de trabalho e saúde mental, não mais como luxo, mas como uma questão de direitos.
Esse avanço, no entanto, ocorre de forma desigual. De um lado, Michelle aponta empresas ainda presas ao chamado “wellness washing”: ações isoladas, selos e certificações que funcionam mais como um escudo contra reclamações do que como um cuidado genuíno. Do outro, há um grupo — ainda tímido — que já projeta culturas regenerativas, desenhando ambientes que não apenas evitam o adoecimento, mas contribuem ativamente para o bem-estar e a cura das pessoas. Falta, na avaliação dela, o que chama de olhar sistêmico: política pública, subsídio, algo como uma Agenda 2030 para o tema, capaz de reconhecer e incentivar quem se compromete de verdade.
A NR-1 como convite, não como ameaça
A agenda corporativa de 2026 está fortemente mobilizada pelas novas exigências de gestão de riscos psicossociais da NR-1. Para Michelle, esse cenário representa a maior oportunidade atual, mas traz um risco proporcional. A pesquisadora alerta, sobretudo, para a atmosfera de medo e alarme que vem sendo criada em torno da regulamentação.
Para Michelle, cumprir a norma “de um jeito não profundo” é possível: mapear riscos, desenhar um plano, entregar. Mas o potencial de transformação está em outro lugar: no diálogo real com as pessoas, na escuta, e principalmente na comunicação dos limites institucionais. “Comunicar os limites institucionais já é cuidar”, resume, mesmo quando o limite é dizer que não há orçamento para reajustes nos próximos dois anos. O silêncio, segundo ela, é o que abre espaço para a especulação e a ansiedade coletiva.
O risco, na outra ponta, é a norma reforçar uma cultura de corresponsabilidade mal distribuída, em que a saúde mental continua sendo tratada como problema exclusivamente individual. “A gente precisa reconhecer essas bordas: tem coisa que é sim responsabilidade do ambiente de trabalho, porque eles estão adoecendo as pessoas. De outro lado, temos pessoas adoecidas trabalhando também.”
_”Comunicar os limites institucionais já é cuidar.”_
A sociedade do cansaço não é sua culpa — mas também é
O cruzamento entre o individual e o coletivo é o coração da pesquisa de Michelle. Doutora em Educação pela FE-USP e pós-doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, ela estuda as relações entre comunicação, tecnologias e a aceleração social do tempo. Para explicar por que se tornou “plausível” trabalhar exaustivamente sete dias por semana, a pesquisadora recorre ao conceito de sociedade do cansaço, do filósofo Byung-Chul Han. Trata-se de uma lógica que extrapola o emprego formal e coloniza toda a vida, do lazer às amizades.
O resultado é uma pressão por não parar nunca — o que ela chama de produtividade tóxica — que empurra as pessoas para um estado que descreve como “anestésico”: sem espaço nem para perceber os próprios sinais de esgotamento. “O modo ininterrupto vai deixando a gente no automático, que é o não pensar, e no anestésico, que é o não sentir.”
A partir daí, a pesquisadora traz uma perspectiva raramente abordada nesse debate: a de que essa exigência é internalizada e reproduzida por nós mesmos. Cria-se, assim, um ciclo em que o indivíduo se torna, sem perceber, o vetor da engrenagem que o adoece. “Às vezes, a cobrança parte de nós, somos nós que nos impomos esse ritmo” — um processo atravessado, no entanto, por marcadores sociais como gênero, raça, idade e maternidade, que tornam essa vivência única para cada pessoa.
_”O modo ininterrupto vai deixando a gente no automático, que é o não pensar, e no anestésico, que é o não sentir.” _
O que é descansar, afinal
Para Michelle, boa parte do que chamamos de descanso hoje não cumpre a função de descansar. “A gente não descansa mesmo, a gente vive 24 por 7”, diz. Dormir, fazer uma pausa de trinta minutos entre reuniões, uma caminhada … ela chama isso de antídotos da exaustão, válidos, mas insuficientes. “Eles não assimilam a ideia de um descanso profundo, que significaria pausar a própria realidade e a pressão, e não apenas a pressa.” Em seguida, ela acrescenta uma observação desconfortável: no cenário atual, esses antídotos tornaram-se um privilégio, escolhas acessíveis a pouquíssimas pessoas.
Ela mesma pratica o que defende: reserva os fins de semana para ficar offline, avisando com antecedência quem precisa saber. Mas não é sem esforço. “Requer um empenho gigantesco”, admite. “Você tem que se justificar, você tem que dizer: gente, não é orgulho, estou offline.”
O que separa performance de transformação
Quando questionada sobre a diferença entre empresas que adotam apenas ações isoladas e aquelas que constroem, de fato, ambientes saudáveis, Michelle aponta para o DNA da organização. Segundo sua experiência, as corporações que avançam genuinamente nessa pauta costumam carregar um compromisso prévio com a sustentabilidade ou o impacto social; elas não partem do zero. A partir dessa base, as transformações emergem primeiro nas relações humanas: manifestam-se em maior segurança psicológica, em uma comunicação menos tóxica e na abertura de espaços para que pessoas historicamente silenciadas possam coexistir e se expressar. Os indicadores tradicionais — como as taxas de turnover e afastamentos — respondem depois, a médio e longo prazo. É esse o caminho que separa performance pontual de uma verdadeira cultura regenerativa.
Uma nova protagonista
A trajetória de Michelle Prazeres toca, de forma bastante direta, em pelo menos quatro dos oito princípios que orientam o Movimento Marcas que se Importam. O segundo princípio — tratar os humanos como humanos, e não apenas como recursos — é, na prática, o território em que ela atua há dez anos: sua defesa de que descansar é direito, e não recompensa por produtividade, é uma tradução quase literal desse princípio para o cotidiano das organizações.
Há também um eco claro do sétimo princípio, sobre liderar sob orientação de valores. Quando Michelle fala em comunicar limites institucionais como forma de cuidado, ou em corresponsabilidade entre liderança e equipe, está descrevendo exatamente o tipo de liderança “capaz de sentir, pensar e relacionar-se” que o movimento defende. Uma liderança que não terceiriza a saúde mental para o indivíduo, nem finge que o problema não existe.
E há também um eco do quinto princípio, o da ética e da transparência: a crítica que Michelle faz ao wellness washing — ações que existem para “dizer que se importa” mais do que para efetivamente cuidar — é, no fundo, uma cobrança por coerência entre discurso e prática, o walk the talk que o movimento defende. Já a distinção que ela traça entre esse tipo de gesto superficial e as culturas regenerativas remete ao sexto princípio: a diferença entre apenas zerar danos e se comprometer a gerar impacto positivo — para pessoas, e não só para o planeta.
IDGs e as habilidades essenciais
Ser (Being) — Cultivar a vida interior, com foco em autoconsciência, presença, integridade e abertura ao aprendizado.
Pensar (Thinking) — Desenvolver a capacidade de compreender a complexidade, com pensamento crítico, sistêmico e visão de longo prazo.
Relacionar (Relating) — Fortalecer a forma como nos conectamos com os outros e com o mundo, por meio de empatia, humildade e compaixão.
Colaborar (Collaborating) — Aprimorar habilidades de cocriação, comunicação e construção de relações de confiança em contextos diversos.
Agir (Acting) — Transformar intenção em ação, com coragem, resiliência, responsabilidade e orientação para mudanças concretas.
Mais do que um novo modelo, os IDGs reposicionam a sustentabilidade como uma capacidade humana — e não apenas como uma agenda corporativa.
O trabalho de Michelle dialoga diretamente com essa lógica, embora ela não fale em IDGs nesses termos. A ideia de que descansar exige “sair do modo anestésico” — recuperar a capacidade de sentir e pensar antes de agir — é, na prática, um convite ao desenvolvimento das dimensões Ser e Pensar. E sua defesa da comunicação como pilar do cuidado organizacional é, em essência, um chamado para fortalecer Relacionar e Colaborar dentro das empresas. Se os IDGs apostam que a transformação sistêmica depende de pessoas mais desenvolvidas por dentro, Michelle oferece, com sua pesquisa, um dos caminhos práticos para chegar lá.
* Michelle Prazeres é jornalista, pesquisadora e colunista da UOL Viva Bem, professora do PPGCOM da UNIP e da graduação em Jornalismo da Cásper Líbero. À frente do Instituto Desacelera, segue defendendo que descansar — de verdade — é também uma questão de política pública, e não apenas de escolha individual.
Fontes consultadas





