Para a fundadora da Agrosmart, o futuro da alimentação depende de superar falsas oposições: tecnologia e tradição, produtividade e regeneração, agro e meio ambiente.

Mariana Vasconcelos aprendeu cedo que alimento, tecnologia e impacto social faziam parte da mesma conversa. Crescida em uma família ligada tanto à produção rural quanto ao comércio de alimentos, cresceu entre o campo e a mesa: de um lado, a relação com a terra e a produção; de outro, o negócio familiar e a experiência de transformar alimento em conexão entre pessoas.
A tecnologia entrou em sua trajetória como um caminho para ampliar esse impacto. Mais do que resolver problemas locais, Mariana queria encontrar formas de escalar soluções. Foi dessa combinação entre raízes e inovação que nasceu, em 2014, a Agrosmart, empresa de inteligência climática aplicada ao campo que integra sensores, imagens de satélite e modelos agronômicos para apoiar decisões mais sustentáveis na agricultura. Aualmente, a Agrosmart atende mais de 100 mil produtores e monitora 48 milhões de hectares em nove países da América Latina. A Agrosmart se consolidou como referência em inteligência climática e tecnologia no campo na América Latina.
Reconhecida pelo Fórum Econômico Mundial, MIT Technology Review e Bloomberg Línea, Mariana Vasconcelos se tornou uma das vozes latino-americanas nas discussões sobre segurança alimentar, adaptação climática e transformação dos sistemas agrícolas. Sua visão é clara: alimentar um planeta sob pressão exigirá mais do que produtividade. Exigirá conhecimento, colaboração e novas formas de liderança. Essa é a essência da liderança consciente que Mariana defende: unir dados, ciência e propósito para enfrentar a crise climática.
A conexão entre campo e tecnologia esteve presente desde o início da sua história. “Eu cresci no campo, meu pai é produtor rural, então desde muito criança tenho essa conexão com a natureza e com a produção de alimentos. Minha família vai desde a produção até o varejo, pois temos uma padaria, então essa questão do alimento como algo que une as pessoas sempre teve muito valor para mim”, conta Mariana.
Apesar dessa origem, ela escolheu primeiro o caminho da tecnologia. Trabalhou com soluções para conectar sensores, equipamentos e sistemas de decisão em setores como petróleo e gás e descontaminação ambiental. A aproximação com o agro aconteceu quando participou de uma competição de inovação com um projeto voltado ao uso da água na irrigação.
“O Brasil é líder em produção de alimentos, tem uma capacidade competitiva única e isso se conectava profundamente com meu propósito e minhas raízes. Decidimos direcionar nosso foco para criar um negócio voltado à produção de alimentos”, lembra ela.
A inquietação que deu origem à Agrosmart veio da seguinte pergunta: como tomar decisões tão importantes no campo sem registrar e organizar o conhecimento existente? No campo, a empreendedora percebeu que havia “um processo muito baseado na intuição e em um conhecimento valioso transferido entre gerações, mas que muitas vezes se perdia. Se a pessoa que detinha aquele conhecimento fosse embora, toda aquela história ia junto”.
A solução inicial parecia ser criar dados. Mas, no caminho, Mariana percebeu que apenas informação não bastava. “Aprendemos que o dado bruto não era suficiente. As pessoas precisavam saber interpretar aquela informação e transformá-la em decisão”, conta. Foi esse aprendizado que consolidou a Agrosmart como plataforma de inteligência climática aplicada à agricultura regenerativa.
_ “A segurança alimentar é uma crise sistêmica, diretamente relacionada à nossa capacidade de produzir alimentos em um planeta em transformação.” _
Clima e alimento: duas crises que precisam ser pensadas juntas
Hoje, Mariana participa de debates globais sobre clima, sistemas alimentares e segurança alimentar. Para ela, um dos maiores riscos está justamente em tratar esses temas como assuntos separados. “A gente costuma colocar segurança alimentar e crise climática em caixas diferentes. Mas a segurança alimentar é uma crise sistêmica, diretamente relacionada à nossa capacidade de produzir alimentos em um planeta em transformação.”
Outro desafio, segundo a CEO da Agrosmart, é a tendência de agir apenas quando o problema já chegou. “Existe uma zona de conforto em que deixamos para depois aquilo que é importante e cuidamos apenas do que parece urgente. A gente vê isso quando acontece um evento extremo, como enchentes ou incêndios. Naquele momento todos olham para a pauta, mas depois ela perde prioridade.”
Para Mariana, o agro brasileiro tem um papel importante nessa transformação: “meio ambiente e agronegócio não estão em lados opostos; eles estão do mesmo lado da mesa. Quando cuidamos do solo, da biodiversidade e das condições ambientais, favorecemos uma produção mais abundante”.
Ela defende que o debate precisa sair da polarização e se aproximar da ciência. “O produtor já faz muita coisa considerada regenerativa, mesmo quando não usa esse nome. O que falta muitas vezes é conhecimento acessível para ampliar essas práticas”, pondera Mariana.
_ “Meio ambiente e agronegócio não estão em lados opostos; eles estão do mesmo lado da mesa. Ao cuidarmos do solo, da biodiversidade e das condições ambientais estimulamos uma produção mais abundante.” _
Liderar também é criar condições para que pessoas boas permaneçam
A trajetória de Mariana também foi construída em ambientes historicamente masculinos, como tecnologia e agronegócio. “No início, eu era questionada por ser mulher e jovem. Para ser ouvida, eu precisava demonstrar um domínio técnico muito forte. Isso acabou se tornando um diferencial, porque me obrigou a estudar e me preparar muito.”
Ela percebe mudanças importantes no ecossistema, especialmente pelo fortalecimento de redes de apoio entre mulheres. Para ela, hoje há muito mais mulheres ocupando posições de liderança. “As comunidades de mulheres no agro são extremamente colaborativas e têm um papel importante na troca de conhecimento”, reforça.
Depois de construir uma empresa e atravessar momentos de crise, Mariana acredita que líderes precisam voltar a perguntas essenciais. “A primeira é: por que você está fazendo o que está fazendo? A segunda é sobre legado: qual marca você quer deixar? E a terceira é: o que eu preciso fazer para que as pessoas boas permaneçam?”
Para ela, essa última pergunta revela uma mudança necessária na forma de pensar negócios. “Muitas empresas ficam concentradas em números e resultados financeiros, mas esquecem da cultura humana necessária para manter talentos.” Para Mariana, essa é uma das faces menos visíveis, mas mais decisivas, da liderança feminina no agro.
A visão de Mariana sobre inovação vai além da tecnologia. Ela defende a criação de pontes: entre campo e ciência, entre empresas e sociedade, entre produtividade e regeneração. “Empreender e liderar é uma trajetória difícil e solitária. Os reconhecimentos ajudam porque mostram que, apesar dos erros e das inseguranças, existe valor no caminho escolhido. Eles dão energia para continuar construindo a mudança.” Para Mariana, construir mudança exige mais do que inovação tecnológica. Exige criar pontes entre campo e ciência, entre empresas e sociedade, entre produtividade e regeneração.
Fonte consultada
https://agrosmart.com.br/sobre/





