Uma cartilha para quebrar o silêncio climático nas escolas e em casa

Escrita por quatro autoras e três movimentos climáticos, a cartilha “Educação Climática: Guia Prático para Famílias e Educadores” já soma mais de 8 mil downloads e chegou à COP30. Em entrevista ao Marcas que se Importam, a jornalista e coautora Daniela Vianna conta como o material nasceu e por que aposta na esperança ativa em vez do discurso catastrofista.

Dar ferramenta para quem já está pronto para agir, e mostrar por onde começar para quem ainda não sabe como. É esse o espírito de Educação Climática: Guia Prático para Famílias e Educadores, cartilha de quase 100 páginas escrita por Daniela Vianna, Samantha Graiki Proença, Livia Ribeiro e Mariana Menezes, com curadoria de mais de 216 dicas e referências.

A publicação é fruto de um encontro entre três frentes: o movimento Famílias pelo Clima — criado em 2019 para apoiar os jovens que saíram às ruas nas primeiras greves globais do Fridays for Future —, o Escolas pelo Clima, que trouxe o olhar pedagógico, e a Rede Saúde Planetária Brasil, sediada no Instituto de Estudos Avançados da USP.

“A gente estava sentindo falta de ter algum material que pudesse tanto apresentar às famílias quanto, de alguma forma, pressionar um pouco as escolas, com educação climática consistente, para quebrarem o silêncio climático”, conta Daniela Vianna, doutora em Ciências Ambientais pelo PROCAM/USP.

O projeto começou como um folheto e cresceu com uma microbolsa do Our Kids’ Climate, que viabilizou tanto a diagramação quanto o capítulo mais experimental da cartilha: o relato de uma vivência real em duas escolas de Atibaia e Bragança Paulista. Lá, professores foram capacitados antes de crianças participarem de dinâmicas como o tapete interativo “Trilhas para o Novo Clima” e o jogo “gases e calorzinhos” — em que as próprias crianças interpretavam gases de efeito estufa. A atividade também recebeu o Cacique Márcio, do Pico do Jaraguá, para uma roda de conversa sobre cosmovisão indígena. “Foi muito especial: ele fez roda de Manacá com as crianças, contou histórias que eles contam para as crianças na aldeia”, lembra Daniela. No desenho que fizeram depois sobre a experiência, as crianças destacaram justamente esse encontro.

Hoje a cartilha soma mais de 8 mil downloads, está disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP e passou a circular também em plataformas como o Cemaden Educação e a ReDUS. Foi lançada na COP30, no Rio de Janeiro, e já embasa formações de professores da rede pública de Campinas, em parceria com a Unicamp. Para 2026, o grupo — formado inteiramente por voluntárias — busca levar o material a secretarias estaduais de educação.

Não dá para falar de clima sem falar de desigualdade

Antes de chegar às ações práticas, a cartilha dedica um bloco inteiro a explicar o que é Justiça Climática, Racismo Ambiental e Justiça Intergeracional. “Não tem como combater a crise climática sem combater desigualdade”, diz Daniela. Ela cita como exemplo o Nepal, um caso emblemático de injustiça climática, encravado entre duas potências poluidoras, Índia e China. O país contribuiu com apenas 0,8% das emissões globais e ainda assim está entre os mais afetados pelos efeitos da crise. O mesmo raciocínio vale dentro de uma única cidade: “Uma coisa é a gente trabalhar numa escola de classe média-alta, com crianças que voltam para casa e têm ar-condicionado. Outra coisa é uma escola onde a criança se alimenta ali, volta e não vê nenhuma árvore no caminho, numa região que alaga.”

A cartilha assume um tom de “esperança ativa”, como um contraponto ao discurso catastrofista que, segundo pesquisas citadas pelas autoras, tende a paralisar em vez de mobilizar. Para Daniela, o antídoto para a ecoansiedade não é minimizar a gravidade da crise, mas transformar essa angústia em ação: “Tem pesquisas que indicam que a ecoansiedade reduz na medida em que as pessoas começam a agir e veem que não estão sozinhas.” Por isso o material foi pensado como um ponto de partida, não um manual fechado. A versão online permite que cada leitor escolha os links e temas que quer aprofundar.

Mapeamento é ponto de partida e a rede sustenta a mudança

Se tem um fio que atravessa a cartilha inteira, é a ideia de que nenhuma ação isolada sustenta uma mudança. Das 14 dicas práticas voltadas a escolas, Daniela aponta o mapeamento como ponto de partida mais realista para quem está começando do zero: “É ver quem já está fazendo e, dentro do ambiente escolar, começar com pequenas ações que possam ser medidas e ter resultados no curto prazo. Isso estimula que outras ações aconteçam depois.” Foi assim que a parceria com o Escolas pelo Clima — que já conecta milhares de escolas e compartilha boas práticas entre elas — se tornou peça central do capítulo dedicado a educadores.

Um dos exemplos mais concretos de rede em ação veio de Campinas, onde a equipe formou professores de escolas com realidades opostas, uma perto do Taquaral, parque nobre da cidade, outra na zona rural. Num dos encontros, um professor relatou que as árvores frondosas de sua escola foram cortadas por ordem do poder público. “Aí você começa a conectar essas pessoas e elas dizem: ‘Mas meu Deus, que absurdo, como a gente se articula?'”, conta Daniela. “Os próprios professores da rede pública começam a se articular entre si para se apoiarem com exemplos no território.”

O que falta é preparo para o risco

Questionada sobre qual mudança estrutural mais aceleraria a educação climática no Brasil, Daniela vai direto a um ponto pouco discutido: a falta de cultura de percepção de risco. “A gente tem que profissionalizar o risco e entender os riscos nos territórios”, diz, citando o exemplo de Porto Alegre, que — depois da tragédia de 2024 — passou a se preparar com antecedência para novas chuvas fortes, com pontos de acolhimento e suprimentos definidos. “O que precisa é que cada escola tenha um plano de contingência para uma onda de calor, para uma seca, para uma enchente, onde as crianças, as pessoas, a comunidade estejam preparadas para agir.”

O recado para quem lidera

Ao final da conversa, Daniela também deixou um recado direto para empresas e lideranças que se dizem comprometidas com a pauta climática, não apenas no discurso. Para ela, nenhuma empresa está imune aos efeitos da crise climática, nem mesmo as que hoje reportam bons resultados. “Ninguém está seguro no auge do seu relatório trimestral de desempenho se isso não estiver apoiado numa boa matriz de risco que preveja a questão climática como algo central”, afirma. Para a jornalista e pesquisadora, resgatar o papel social original das empresas significa sair do foco individual e somar forças: “A nossa solução é coletiva. Nenhum setor, nenhuma cidade, nenhum segmento vai conseguir resolver o problema sozinho. A gente chegou aqui como parte do problema, vai ter que ser parte da solução.”

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

Mais Lidas

A automação pode devolver à humanidade o tempo que ela perdeu
Uma cartilha para quebrar o silêncio climático nas escolas e em casa
Ricardo Voltolini relembra Bob Chapman e sua convicção de que todo mundo importa
Weleda: crescimento responsável sem perder a raiz

Preencha o nosso formulário:

O envio deste formulário não confirma sua inscrição no Marcas que se Importam. Nossa equipe vai analisar as informações e entrará em contato em breve com os próximos passos.