Apoiado em Byung-Chul Han, Domenico De Masi, Zygmunt Bauman e Klaus Schwab, o articulista Benedito Nunes Rosa defende que a automação, bem direcionada, pode devolver à humanidade o tempo necessário para cultivar criatividade, empatia e vínculos humanos.

O avanço da automação e da inteligência artificial (IA) frequentemente desperta debates sobre o futuro do trabalho e a possível obsolescência da atuação humana, provocando profundas reflexões sobre se o que está sendo reservado para nós estaria mais próximo do que nos tem mostrado a ficção científica ou se poderemos desfrutar de uma vida menos agitada e estressante, apoiados pelos recursos tecnológicos que temos à disposição. Sob uma perspectiva humanista e sociológica, a tecnologia pode ser interpretada como um vetor de emancipação e sob uma perspectiva de apreensão e do natural “medo do desconhecido”, poderíamos traçar um roteiro bastante desanimador.
Para fins de atender ao propósito deste artigo, pretendemos analisar como a delegação de tarefas operacionais e repetitivas às máquinas pode mitigar a sobrecarga burocrática contemporânea, em uma premissa de restituir ao indivíduo novas “fatias de tempo” que permitirão o desenvolvimento de competências intrinsecamente humanas, como a criatividade, a empatia e o pensamento analítico, lembrando, entretanto, que tudo sempre dependerá das escolhas que fizermos.
Para avançarmos nessa reflexão, vamos nos apoiar nos argumentos de Byung-Chul Han, Domenico De Masi e Zygmunt Bauman, e, em um vetor mais empresarial, no pensamento de Klaus Schwab, criador do Fórum Econômico Mundial, fundamentos que combinados nos permite deduzir que a automação, longe de promover a desumanização, poderá oferecer condições estruturais para que possamos direcionar nossos esforços rumo a um novo patamar de evolução ética, intelectual e social.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han destaca em sua obra “A Sociedade do Cansaço”, que o sujeito moderno se transformou em um “animal de trabalho”, explorando a si mesmo na busca incessante pelo desempenho. Diante desse esgotamento sistêmico, surge um questionamento fundamental: a automação atua como um agente de alienação ou como um instrumento de libertação do potencial humano? A hipótese que defendemos é a de que a automação bem direcionada atua como um filtro emancipatório, transferindo a carga mecânica para os sistemas digitais e devolvendo ao sujeito tempo de qualidade, que ele poderá utilizar em seu processo de autorrealização e produção criativa.
_ “A automação bem direcionada atua como um filtro emancipatório, transferindo a carga mecânica para os sistemas digitais e devolvendo ao sujeito tempo de qualidade.” _
Uma vez que a tecnologia absorve a demanda operacional, o tempo remanescente emerge como um ativo de valor inestimável. O sociólogo italiano Domenico De Masi, em sua célebre teoria do Ócio Criativo, argumentava que a plenitude do desenvolvimento humano na era pós-industrial reside na fusão harmoniosa entre o trabalho, o aprendizado e o jogo. Para De Masi, a tecnologia deveria ser a grande aliada da humanidade, libertando o indivíduo das tarefas alienantes para que ele pudesse se dedicar ao pensamento livre, à arte e à convivência social, em síntese, à perenidade da nossa sociedade, fundamentada em um modelo de progresso sustentável.
A criatividade não se restringe à produção artística; ela é a capacidade de conectar saberes heterogêneos, conceber soluções inovadoras para dilemas complexos e projetar cenários futuros. Entretanto, essa “faísca criativa” depende fundamentalmente de experiências vivenciais, da sensibilidade estética e da capacidade de compreender nuances emocionais — atributos que carecem de equivalentes algorítmicos e que, só emergem do tempo que é disponibilizado, livre do ruído das tarefas cotidianas, o que haverá de permitir o florescimento da inovação cognitiva e cultural.
Essa reconquista do tempo é crucial para mitigar os efeitos da fragmentação social discutidos por Zygmunt Bauman em suas análises sobre a Modernidade Líquida. Em suas argumentações, Bauman adverte que a velocidade das transformações contemporâneas cuidou de mercantilizar o tempo e fragilizar os vínculos humanos, tornando as relações efêmeras e, sem o tempo necessário para o cultivo da alteridade, a sociedade acaba por se desumanizar. Neste cenário, a automação cria uma janela histórica de oportunidades ao desacelerar o ritmo operacional imposto ao homem, devolvendo a ele o espaço necessário para a reconstrução de laços profundos e para o exercício da empatia, resgatando a solidez existencial em meio à liquidez moderna.
Também não podemos desconsiderar que a relação entre o humano e a técnica sempre foi motivada pela busca da eficiência e superação das limitações físicas, enfatizadas pela transição da chamada Indústria 4.0. A consolidação da inteligência artificial, vem transformando profundamente a dinâmica social e produtiva, gerando como sintoma mais evidente dessa modernidade tardia a escassez crônica de tempo, fenômeno frequentemente associado à lógica da hiperprodutividade.
Em sua obra seminal¹, Klaus Schwab argumenta que a Quarta Revolução Industrial só trará benefícios reais à humanidade se os líderes e cidadãos aprenderem a guiar o progresso tecnológico integrando quatro tipos de inteligência essenciais: a mente (inteligência contextual), o coração (inteligência emocional), o corpo (inteligência física) e a alma (inteligência inspiracional).
Schwab argumenta que a Indústria 4.0 – com toda a sua automação, inteligência artificial, big data e internet das coisas – corre o risco de ser apenas uma engrenagem fria se não for guiada por valores essencialmente humanos o que nos desafia a questionar para que estamos criando algo e não apenas como estamos criando. Talvez o maior desafio desse novo tempo não seja desenvolver máquinas mais inteligentes, mas sim, garantir que nós humanos não nos tornemos máquinas, no stricto sensu da palavra, sem ao menos considerar as consequências do que estamos fazendo.
Mas, nem tudo está perdido, o que significa que vale a pena avaliar com profundidade os benefícios que podem ser auferidos com o impacto da automação. Para isso, basta observar como ela já reconfigura diferentes setores do ecossistema profissional, corroborando com o propósito central de não se colocar como um substituto do intelecto, mas com a absorção da burocracia e do processamento de dados em larga escala, atividades que historicamente consumiram parcelas significativas do tempo humano, como observamos nos exemplos a seguir:
- Na Medicina e na Saúde: A introdução de algoritmos de aprendizado de máquina na análise de exames de imagem viabiliza o diagnóstico preliminar de patologias com alta precisão e em frações de segundo. Esse procedimento libera o profissional médico da exaustiva tarefa de varredura puramente técnica, permitindo que ele possa dedicar maior tempo ao atendimento clínico humanizado, à escuta ativa do paciente e ao desenho de tratamentos personalizados — esferas onde a empatia e o julgamento subjetivo são insubstituíveis.
- No Setor Jurídico: Plataformas de automação jurídica realizam a leitura de milhares de processos, jurisprudências e contratos em segundos, identificando inconformidades ou padrões textuais. Essa filtragem massiva poupa os juristas de semanas de trabalho burocrático e mecânico, permitindo que a energia intelectual seja concentrada na formulação de estratégias de defesa inovadoras, na argumentação crítica e na busca pela justiça social.
- Na Educação: Sistemas de ensino adaptativos automatizam a correção de avaliações padronizadas e o mapeamento de dificuldades estatísticas dos alunos, livrando o docente do peso da burocracia avaliativa, permitindo que ele possa reassumir seu papel fundamental de mentor, de facilitador do debate filosófico, da curiosidade científica e do desenvolvimento socioemocional dos estudantes.
A humanização através da técnica
Analisando esses argumentos iniciais, é razoável concluir que o avanço tecnológico e a preservação dos valores humanistas não são forças antagônicas, mas sim complementares. O risco da desumanização não reside na máquina que pensa, mas sim no homem que é forçado a agir como máquina.
Como Han bem pontua, a hiperatividade apenas replica o idêntico; a verdadeira inovação requer a pausa e a contemplação. O tempo recuperado por meio da eficiência tecnológica constitui matéria-prima para a construção de uma sociedade mais ética e integrada. Ao investirmos esse saldo temporal no autoaperfeiçoamento proposto por De Masi e na consolidação de laços comunitários defendida por Bauman, aliados à estrutura cognitiva de Schwab, transformamos o progresso técnico em progresso civilizatório.
_ “O risco da desumanização não reside na máquina que pensa, mas sim no homem que é forçado a agir como máquina.” _
É imperativo, sob o risco de uma estagnação civilizatória, entender que automação, em última análise, tem o potencial de promover um autoencontro que irá nos devolver a nós mesmos, emancipando o tempo para que a humanidade possa exercer, com plenitude, a sua capacidade de criar, de sentir e de evoluir, lembrando que as grandes transformações não se apresentam a corações cujas portas estejam fechadas.
“Dave, eu vou poder sonhar? Não, sonhar é só para os humanos.”²
_ “As grandes transformações não se apresentam a corações cujas portas estejam fechadas.” _
Notas
[1] A 4ª Revolução Industrial, Schwab, Klaus, EDIPRO, 6 de mai. de 2019 – 160 páginas.
[2] Um dos diálogos mais marcantes e melancólicos da ficção científica, que acontece entre o astronauta Dave Bowman e o supercomputador HAL 9000, no universo de 2001: Uma Odisseia no Espaço, filme de Stanley Kubrick, inspirado na obra de Arthur C. Clarke.
* Benedito Nunes Rosa é professor, pesquisador e palestrante nas áreas de Sustentabilidade e Ciência da Felicidade há cerca de 15 anos, fundador e diretor-executivo de Sentido do Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar. Autor de ‘Pessoas felizes fazem coisas incríveis’ e articulista do Marcas que se Importam.”





