Autor de “Todos Importam”, ex-CEO da Barry-Whehmiller, Bob Chapman morreu em março de 2026, deixando como legado vivo o conceito de uma liderança empática, cuidadora e orientada por valores e propósito.

Com a morte de Bob Chapman, em 20 de março de 2026, a trincheira da liderança humanizada e orientada por valores perdeu um de seus mais aguerridos guardiões no mundo corporativo. Eu perdi, por tabela, um professor, uma referência e um mestre, exatamente quando planejava entrevistá-lo para o movimento Marcas que se Importam. Não deu tempo, infelizmente.
Lançado em 2015, “Everybody Matters: The Extraordinary Power of Caring for Your People Like Family” (Todos Importam: O Poder Extraordinário de Cuidar das Pessoas como Família) representou uma rica fonte de ideias para a minha jornada com liderança sustentável no Brasil. Confirmou hipóteses, ratificou teses. Inspirou novos olhares. Escrito a quatro mãos com Raj Sisodia, fundador e coautor do Capitalismo Consciente, este importante livro de Chapman foi traduzido para oito idiomas. Em 2025, ganhou uma edição revisada e ampliada, que apresentou algumas evoluções sobre o célebre conceito de “liderança verdadeiramente humana” e a aplicação prática dele na Barry-Whehmiller, empresa que o executivo capitaneou por quase cinco décadas.
Chapman criou uma filosofia muito singular segundo a qual liderar é um ato privilegiado de cuidar plenamente das pessoas confiadas a você, um dos pilares da liderança verdadeiramente humana. Em defesa de sua proposta, costumava comparar o papel do líder ao de um pai ou uma mãe, ressaltando que cada colaborador é “o filho precioso de alguém” e merece ser tratado com cuidado e respeito. “Os negócios podem ser a força mais poderosa para o bem no mundo, se simplesmente ensinarmos nossos líderes a zelarem pela saúde, bem-estar e segurança das pessoas sob sua responsabilidade”, dizia em reforço a uma das ideias-força de sua doutrina humanista – hoje ensinada em mais de 70 escolas de negócios ao redor do mundo
A Barry-Wehmiller foi o seu laboratório pessoal. Na empresa da família, Chapman testou uma nova definição para sucesso empresarial que prega a coexistência em harmonia entre crescimento econômico e vitalidade humana. Em 1975, quando herdou o comando de uma corporação com dificuldades financeiras, a B-W faturava US$ 20 milhões anuais. Em 2025, entregou ao filho Kyle uma companhia significativamente maior com 12 mil funcionários, faturamento de US$ 3,6 bilhões, e um portifólio abrangente com automação industrial, embalagens, serviços profissionais e tecnologia para ciências da vida.
Craque consagrado na gestão de negócios, Chapman viveu, no final da década de 1990, uma série de insights “transformadores”, que mudaram o seu jeito de pensar a “gestão tradicional” de pessoas e o inspiraram a criar o conceito – que se tornaria o seu legado — de “liderança verdadeiramente humana.”
Um desses estalos ocorreu durante o culto de domingo numa pequena igreja episcopal de St. Louis, no Missouri (EUA.) Cristão praticante, ele admitiu ter tido uma espécie de “revelação” ao observar a diferença abismal entre o nível de energia e de brilho nos olhos dos fiéis na igreja e dos colaboradores na empresa. Foi esse clique que o levou a se questionar por que o trabalho não poderia ser um espaço de propósito e significado tão fervoroso quanto o ambiente religioso. Assim, começou uma importante revolução de valores.
Ao invés de adotar apenas indicadores financeiros (KPIs), Chapman propunha que as empresas avaliassem o sucesso com base na saúde e felicidade dos seus colaboradores. Para ele, o modo com que os indivíduos são liderados no trabalho afeta sua saúde física e mental. Os bons líderes – acreditava — são aqueles que conseguem criar ambientes de trabalho nos quais os humanos se sintam seguros, incluídos, cuidados e confortáveis em expressar sua verdadeira humanidade.
_ A maioria das empresas usa pessoas para construir produtos e ganhar dinheiro. Nós usamos nossos produtos para construir pessoas. _
“A maioria das empresas usa pessoas para construir produtos e ganhar dinheiro. Nós usamos nossos produtos para construir pessoas. Medimos sucesso pelo impacto positivo na vida dos colaboradores. Uma boa cultura atrai boas pessoas; boas pessoas abraçam a cultura”, ensinou.
Para Chapman, não basta simplesmente cobrar que os líderes se importem. É necessário, acima de tudo, ensinar as habilidades de uma liderança cuidadora. Nos programas de educação executiva das empresas, nas escolas de negócio.
A principal competência — crê – é a escuta empática, que ele define como a habilidade de “ouvir para compreender.” Não por acaso, essa competência também surgiu nas minhas pesquisas e integra o quadro das 4 Competências para uma Liderança Sustentável. Não por acaso, é uma das 25 habilidades listadas nos Inner Development Goals (IDGs).
Segundo o executivo-pensador, a ausência de escuta afetiva nas empresas é uma das maiores causas de estresse e desengajamento. Ouvir genuinamente os colaboradores, conferindo-lhes a oportunidade de saberem quem são e o que fazem, cria um ambiente de gratidão e pertencimento, transformando a cultura organizacional. O foco não está em resolver problemas, mas validar o sentimento do outro. Exige presença, interesse, compaixão, mente e coração abertos. Quando se sentem ouvidas, as pessoas se veem valorizadas.
Completam o quadro de habilidades básicas da “liderança verdadeiramente humana”, proposta por Chapman, outros quatro atributos.
(1) Reconhecimento e celebração: os líderes devem ser “caçadores de excelência”, dedicando mais tempo a destacar os acertos dos colaboradores do que os erros, e a mostrar como o trabalho impacta positivamente o grupo.
(2) Comunicação de “mordomo” (Stewardiship): em vez de darem ordens, repetindo o modelo de comando-controle, os líderes precisam ser facilitadores convictos, comunicando a visão de forma que todos compreendam o “porquê” do trabalho, e deixando que os liderados se sintam empoderados para decidir os “comos.”
(3) Disciplina com compaixão: “humanizado” não significa ser displicente em relação à performance. Os líderes precisam aprender a fazer conversas difíceis com foco no crescimento do indivíduo; feedbacks negativos ou de correção não justificam, no entanto, agressões à dignidade das pessoas.
(4) Design com propósito: os líderes devem ter a habilidade de conectar as tarefas diárias com um propósito mais elevado, apoiando os colaboradores a perceberem que não estão apenas “operando uma máquina”, mas contribuindo para a segurança e o bem-estar de alguém.
Se legado é o melhor do que deixamos de nós nas pessoas, o de Chapman se ancora no impacto positivo a milhares de seguidores em todo mundo, não só os colaboradores de sua empresa nas últimas cinco décadas. Como fez Peter Drucker no final dos anos 1990, o ex-CEO da Barry-Wehmiller também criou, em 2015, o Instituto Chapman & CO. Leadership, com a missão de disseminar os princípios da liderança verdadeiramente humana para organizações sem fins lucrativos.
Em 2025, a revista Inc. o incluiu numa lista dos 50 maiores especialistas em liderança e gestão. Sua palestra no TEDx (2012) já foi vista mais de 300 mil vezes. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=njn-lIEv1LU
Em tributo póstumo a Chapman, todos os escritórios da Barry-Whemiller em 28 países realizaram momentos de silêncio e reflexão sobre o princípio de que “todo mundo importa.” Se os familiares tiverem cumprido rigorosamente um dos seus desejos, o epitáfio do seu túmulo, em St. Louis, deve conter a seguinte mensagem final: “Ele realmente se importava com as pessoas cujas vidas teve o privilégio de tocar.”
_ Ele realmente se importava com as pessoas cujas vidas teve o privilégio de tocar. _
* Ricardo Voltolini é fundador da Ideia Sustentável e criador do movimento Marcas que se Importam, professor, escritor, board member, advisor e mentor de líderes para a sustentabilidade.





