Weleda: crescimento responsável sem perder a raiz

Da prateleira de casa ao ambulatório do SUS, a confiança na Weleda se constrói longe do marketing. Em 2025, a empresa fechou o ano com receita recorde e lucro em queda, um retrato do que custa, na prática, crescer com responsabilidade.

 Ilustração de um frasco de cosmético natural sobre uma bancada de laboratório rústica, cercado por ervas e plantas medicinais, com raízes visíveis simbolizando origem e tradição, paleta verde e âmbar, atmosfera de cuidado e ciência natural.

Conheci a Weleda quando estava grávida do meu primeiro filho, em 2010. Recebi algumas recomendações de amigas e profissionais da saúde e, quando comecei a usar, foi como um encontro verdadeiro. Desde então, para mim, o nome carrega um significado específico: cuidado e confiança em um tipo de investimento que vale a pena fazer. Pensar na Weleda ainda hoje me traz uma sensação de aconchego.

Foi com essa lembrança em mente que recebi a sugestão de pauta do Ricardo Voltolini, fundador do Marcas que se Importam, para olhar mais de perto os bastidores de uma marca que, há mais de cem anos, tenta provar que cuidado e negócio não precisam ser inimigos.

Um jeito de cuidar que começa na matéria-prima

A Weleda organiza seu catálogo em quatro grandes frentes, Medicamentos, Maternidade, Rosto e Corpo. Foi justamente pela linha de Maternidade que cheguei até a marca. Por trás de qualquer produto dessas categorias está a mesma filosofia, descrita assim pela própria empresa: “selecionamos cuidadosamente nossas matérias-primas, respeitando suas propriedades, e as misturamos de forma que suas substâncias ativas possam revelar todo o seu potencial para você.”

Na prática, isso significa cosméticos 100% naturais certificados, livres de óleos minerais, parabenos, silicones e PEGs, sem fragrâncias artificiais nem microplásticos e sem modificação genética. No Brasil, a marca declara 80% de ingredientes vegetais de cultivo orgânico controlado. No relatório global mais recente, esse número aparece como 81%, uma diferença pequena que provavelmente reflete o recorte específico de cada mercado. “A natureza está nos pedindo para sermos um bom parceiro”, resume Ueli Hurter, agricultor biodinâmico e membro do comitê de diretores da Weleda.

Um propósito construído há mais de um século

A Weleda nasceu em 1921, na Suíça, fruto da união entre o filósofo Rudolf Steiner, criador da antroposofia, a médica holandesa Ita Wegman e o químico Oskar Schmiedel. Nasceu como uma farmácia que partia da premissa de uma conexão intrínseca entre natureza e ser humano. O propósito declarado hoje pela empresa segue fiel a essa origem:

_ “Desenvolver a saúde e a beleza do corpo, alma e espírito em harmonia com as pessoas e a natureza.”

Para a elaboração deste raio-X, utilizamos o Annual and Sustainability Report 2025 da Weleda, versão global. Nele, mapeamos o que a empresa vem fazendo em relação ao cuidado com as pessoas (metas de diversidade e liderança feminina, projetos com fornecedores), ao meio ambiente (metas de neutralidade de carbono, uso de matérias-primas orgânicas) e à governança (estrutura societária blindada por estatuto). Esses exemplos aparecem detalhados ao longo do texto. Mas fomos além do relatório: também ouvimos consumidoras, como Patrícia Berton e Paula Giovana Furlan, e o médico antroposófico Gustavo Nunes de Oliveira, que usa os produtos na prática clínica.

Quem usa, o que sente

A jornalista Patrícia Berton conheceu a Weleda no final da década de 1990 pela indicação de sua médica antroposófica de São Paulo. Não havia esse tipo de atendimento em Porto Alegre, sua cidade na época. Ela usa desde então tanto os cosméticos quanto os medicamentos manipulados da marca. “Todos os produtos da Weleda são de qualidade, com matéria-prima cultivada sem agrotóxicos e muitos em agricultura biodinâmica. Muitos são fabricados na Alemanha, o que os encarece, mas sempre vale a pena o investimento.” Entre os itens que nunca faltam em casa, ela cita arnica para dores musculares, Infludoron para gripe e a pomada de calêndula para assaduras, “nunca paramos de usar, é maravilhosa”. Sobre por que considera a Weleda uma marca que se importa, ela é direta: “a marca foi criada dentro da medicina antroposófica, cuja abordagem é infinitamente mais humanizada do que a medicina tradicional ocidental.”

Paula Giovana Furlan, terapeuta ocupacional, aromaterapeuta e professora de yoga, usa óleos da Weleda em atendimentos clínicos há anos, além de como consumidora pessoal. “Eu sinto que eles são mais densos, mais concentrados. A gente compra um frasco que não é grande, mas que rende.” Sobre a origem do produto, ela diz confiar no processo, “de que tem uma cadeia produtiva sendo acompanhada e idônea. Não é um óleo de girassol ou de amêndoa adulterado.” Ela lembra de uma paciente com muita rigidez muscular e dor de ATM, que buscou tratamento por causa de enxaquecas ligadas a um conflito familiar. Usou arnica e lavanda ao longo do processo terapêutico, e viu a paciente melhorar tanto no padrão de tensão física quanto na abertura emocional, uma evolução que chegou a registrar formalmente como relato de caso.

O preço de crescer

Em 2025, a Weleda registrou o segundo ano consecutivo de receita recorde, 484,6 milhões de euros, alta de 7,3% em base ajustada por câmbio. O crescimento veio principalmente da linha de cosméticos, que passou pela primeira vez da marca de 400 milhões de euros, puxada por lançamentos como os Booster Drops (fórmulas voltadas à Geração Z, concentradas de sérum desenvolvidas para dar um cuidado extra e imediato à pele) e pela entrada da marca no segmento premium com as linhas Cell Longevity e minLen.

Mas o mesmo relatório que celebra a receita recorde também mostra a outra face da conta. O lucro operacional caiu 58,6%, de 23 milhões de euros para 9,5 milhões de euros, resultado do investimento pesado em modernização de marca e no lançamento de novos produtos.

Em carta aos acionistas, a CEO Tina Müller resume a lógica por trás da escolha, “para a Weleda, crescimento responsável significa crescimento em harmonia com pessoas e natureza”. Olhando bem, é uma frase de efeito, mas os números do próprio ano mostram que ela teve um preço concreto. A empresa optou por sacrificar margem no curto prazo para sustentar um ciclo de renovação de marca e produto. É esse tipo de escolha que aproxima a Weleda de um dos princípios do Movimento Marcas que se Importam, o de abrir mão de resultado financeiro imediato para investir numa transformação que sustente a organização no longo prazo. É esse tipo de escolha, no dia a dia, que dá conteúdo prático ao crescimento responsável que a marca promete.

A blindagem que poucas empresas conseguem sustentar

Esse jeito de crescer sem abrir mão do propósito não é só discurso, está desenhado na estrutura societária da Weleda. A empresa tem cerca de 40% do capital e 80% dos direitos de voto concentrados em dois acionistas, a Sociedade Antroposófica Geral (Dornach) e a Clínica Arlesheim, antiga Ita Wegman Klinik. Pelas regras internas, a transferência de ações exige consentimento por escrito do Conselho, e os compradores precisam ser membros da Sociedade Antroposófica Geral. Na prática, é um mecanismo societário desenhado para impedir que a empresa seja vendida a quem não compartilhe seus valores fundadores, um tipo de blindagem que poucas companhias de capital aberto conseguem sustentar.

Quem preside esse conselho hoje é Thomas Jorberg, ex-banqueiro do GLS Bank, instituição alemã de finanças éticas. Em sua carta aos acionistas, ele assume um tom incomum para o gênero. Fala sobre a erosão de valores como democracia, paz e proteção climática no cenário internacional, e posiciona a Weleda como uma empresa que precisa se reinventar “sem perder de vista suas raízes”. Para ele, os valores que sustentam a companhia há mais de cem anos “não são um legado estático, mas um compromisso com o desenvolvimento contínuo”.

Sustentabilidade traduzida em número, não só em discurso

A Weleda é uma Empresa B certificada desde 2021 e, em outubro de 2024, recertificou-se com pontuação de 120,66, acima dos 106,8 pontos obtidos na primeira certificação. A estratégia de sustentabilidade da empresa se organiza em quatro frentes, cada uma com metas datadas: neutralidade de carbono (escopos 1 e 2) até 2040 e neutralidade completa da cadeia (escopo 3) até 2050; mais de 80% de matérias-primas orgânicas ou biodinâmicas; mais de 95% dos cosméticos certificados pelo selo NATRUE; e mais de 60% de mulheres em cargos de gestão, meta que a empresa já quase alcança, com 59% de gestoras mulheres registradas no fim de 2025.

Os números de 2025 mostram avanços concretos. As emissões diretas (escopo 1) caíram 5,4% em relação a 2024, e as indiretas ligadas à compra de energia (escopo 2) caíram 32,2%. Já as emissões da cadeia de valor (escopo 3), consideradas a fatia mais difícil de controlar, subiram entre 2023 e 2024, num movimento que a própria empresa atribui ao crescimento do negócio e a investimentos em infraestrutura e inovação de produto. É um lembrete de que descarbonizar um negócio em expansão é mais complexo do que os relatórios de sustentabilidade costumam deixar transparecer.

A responsabilidade no campo

Uma das partes mais concretas do relatório de 2025 é a que documenta os projetos de matéria-prima no campo, apontando para menos discurso e mais prática cotidiana com fornecedores. Na Tanzânia, um projeto-piloto de gergelim orgânico envolveu 32 famílias de pequenos agricultores em 2025, com a meta de chegar a 700 produtores em 2026 e entre 2.000 e 3.000 nos próximos anos. Na França, a Weleda expande o cultivo de alecrim orgânico com a meta de atingir 100 hectares até 2030 (o suficiente para cobrir metade da necessidade anual de óleo da marca), usando um novo sistema de compostagem para melhorar a fertilidade do solo.

No Vale das Rosas, em Marrocos, a empresa trabalha com uma cooperativa de 85 mulheres que colhem à mão as rosas Damasco usadas em seus produtos. A parceria já resultou numa creche com playground para as colhedoras e, a partir de 2026, vai contar com um casal de médicos residente na região para dar suporte preventivo de saúde às mulheres e crianças da comunidade. São projetos que, mais do que ilustrar um relatório, testam algo difícil de medir, se é possível transformar uma cadeia de fornecimento em uma rede de cuidado que se sustenta no tempo para as pessoas envolvidas, não só para a marca.

No Brasil, o mesmo compromisso chega ao SUS

Enquanto o relatório fala em hectares e toneladas na Europa e na África, no Brasil o exemplo mais concreto de propósito com consequência prática acontece dentro do Sistema Único de Saúde. Desde agosto de 2023, um ambulatório de terapêuticas integrativas na Unidade Saúde Escola da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) oferece medicina antroposófica, medicina chinesa, fitoterapia e yoga a pacientes encaminhados pela rede pública, sem custo. É um dos poucos pontos do país onde a medicina antroposófica chega de forma gratuita dentro do SUS.

Perguntado sobre por que considera a Weleda uma marca que se importa, o médico Gustavo Nunes de Oliveira, professor da UFSCar e responsável pela frente de medicina antroposófica do ambulatório, resume assim. “É um grupo muito comprometido com a responsabilidade social, com compromisso ambiental e uma tradição de apoiar projetos sociais. Eles têm uma área específica para isso, com gente qualificada. Se não fosse isso, não teria nem conversa.”

A Weleda é a principal doadora de insumos farmacêuticos para a FarmaWegman, farmácia social que abastece o ambulatório semanalmente, numa cadeia que já soma mais de R$ 1 milhão em medicamentos doados. “Se não fosse a parceria com a Weleda, a gente não conseguiria abrir o ambulatório”, diz Gustavo. “No SUS eu não posso impor custo ao paciente, e fazer pesquisa com o paciente comprando o próprio medicamento seria impossível.” Hoje o ambulatório acompanha cerca de 200 pacientes. Em 2023, quando começou, recebia de um a dois encaminhamentos por mês. A fila de espera atual já chega a cerca de quatro meses, e uma prescrição típica, com duas fórmulas manipuladas, custa em torno de R$ 350, algumas ultrapassam R$ 1.000 se o paciente precisasse comprar por conta própria.

Nem tudo é só elogio. O próprio Gustavo aponta um limite estrutural do modelo, quase toda a farmacopeia antroposófica disponível no Brasil é feita com plantas europeias, porque não existe financiamento público para pesquisar, padronizar e aprovar novos medicamentos a partir da biodiversidade brasileira. “O interesse público, hoje, simplesmente não existe”, diz ele. É um lembrete de que mesmo uma parceria bem-sucedida como essa esbarra em barreiras que nenhuma empresa sozinha consegue resolver.

O próximo capítulo

Para 2026, a Weleda projeta continuar crescendo acima da média de mercado, com melhora significativa de rentabilidade, e se prepara para entrar em um novo mercado, que Tina Müller descreve como “um dos maiores mercados de crescimento do mundo”, a Índia. É um movimento que testa, na prática, se uma estrutura societária pensada há um século para proteger um propósito consegue sustentar esse mesmo propósito numa escala global cada vez maior, sem que a “harmonia com pessoas e natureza” vire só um bordão de carta de acionista.

Fontes consultadas

Weleda AG. Annual and Sustainability Report 2025 (“The year of innovation and investment”), divulgado em abril de 2026.

Weleda Brasil. Página “Sustentabilidade” — https://www.weleda.com.br/sustentabilidade

Weleda. Página institucional “Acting sustainably is part of the Weleda identity” — https://www.weleda.co.uk/weleda/our-responsibility/sustainability

Weleda. Página institucional “Weleda today” — https://www.weleda.co.uk/our-story/who-we-are/weleda-today

B Lab. Perfil de certificação B da Weleda AG Group — https://www.bcorporation.net/en-us/find-a-b-corp/company/weleda-a-g-group/

Brazil Beauty News. “Nossa meta é que a Weleda fature um bilhão de euros”, diz CEO Tina Müller — https://www.brazilbeautynews.com/nossa-meta-e-que-a-weleda-fature-um-bilhao-de,5454

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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