A partir da trajetória de Mara Mourão, um olhar sobre as transformações nas narrativas de impacto e o papel do audiovisual na agenda de sustentabilidade.
Durante muito tempo, parte relevante do audiovisual voltado a questões sociais e ambientais se estruturou em torno da denúncia, expondo problemas, desigualdades e urgências. Essa abordagem segue presente e é fundamental.
Ao olhar para a trajetória e as reflexões da cineasta Mara Mourão, no entanto, é possível identificar sinais de deslocamento em curso, especialmente no campo dos chamados filmes de impacto. Mais do que uma substituição de abordagens, o que parece emergir é uma ampliação: narrativas que, além de evidenciarem problemas, também buscam apontar possibilidades. Essa ampliação dialoga diretamente com o campo das narrativas de impacto e da comunicação de propósito.
“Existem obras pensadas desde o início para provocar transformação positiva e é nesse território que escolhi atuar”, afirma a diretora, que lançou em 2025 o documentário Muito Além do Lucro.
Um dos movimentos sugeridos por Mara diz respeito à origem das histórias. Em sua trajetória, o impacto deixa de ser apenas um efeito possível para se tornar, em alguns casos, um ponto de partida.
Isso não significa que todo o cinema opere dessa forma, mas indica a consolidação de um campo específico em que filmes são concebidos com a intenção de gerar mobilização — seja em organizações ou espaços de debate.
_Existem filmes que denunciam, outros que apresentam soluções e alguns conseguem fazer os dois._
Ao relembrar a circulação de Doutores da Alegria, exibido em escolas, ONGs e empresas, a cineasta aponta para um uso do cinema que extrapola a lógica tradicional de exibição. Mais do que alcance, trata-se de contexto: filmes que passam a ser utilizados como disparadores de conversa e reflexão. Uma estratégia cada vez mais usada por marcas que se importam com engajamento real, não apenas alcance.
Talvez seja possível ler esse movimento não como uma redefinição do cinema em si, mas como uma expansão de suas formas de uso, especialmente em agendas como a da sustentabilidade.

Entre denúncia e solução: uma possível ampliação de linguagem
Outro ponto recorrente na entrevista é a coexistência de diferentes abordagens narrativas. “Existem filmes que denunciam, outros que apresentam soluções e alguns conseguem fazer os dois”, observa Mara.
A partir dessa reflexão, mais do que uma substituição da denúncia por narrativas de solução, o que parece ganhar espaço é a integração entre essas dimensões. Um movimento que reflete a própria evolução da comunicação de sustentabilidade corporativa nos últimos anos.
Em um cenário marcado pela complexidade dos desafios socioambientais, histórias que articulam problema e possibilidade podem oferecer novas formas de engajamento. Ainda assim, trata-se de uma tendência em construção, não de um movimento homogêneo ou dominante.
Novos protagonistas ou novas formas de olhar para eles?
Nos relatos de Quem se Importa, a diretora buscou personagens de diferentes contextos e áreas de atuação. A intenção, segundo ela, era mostrar que a capacidade de transformação não está restrita a perfis específicos.
A partir disso, é possível levantar uma hipótese: haveria, no audiovisual contemporâneo, um interesse crescente por histórias que aproximam o impacto do cotidiano, deslocando o foco de figuras excepcionais para trajetórias mais distribuídas?
Mais do que uma ruptura, talvez se trate de uma mudança de olhar: a transformação deixa de ser atribuída apenas a grandes agentes e passa a ser reconhecida também em trajetórias mais próximas e diversas.
Emoção como caminho para engajamento
Mara é clara ao apresentar o papel da emoção. “Se ficarmos apenas nos dados, informamos, mas não tocamos. E sem tocar, não transformamos.” Aqui, mais do que uma tendência do setor, há uma escolha narrativa clara: priorizar histórias capazes de gerar identificação.
Em Doutores da Alegria, por exemplo, essa construção acontece ao acompanhar o cotidiano de palhaços que visitam crianças hospitalizadas — revelando, em cenas simples, como o humor e a presença afetam o ambiente e as relações dentro do hospital.
Em vez de explicar a importância da humanização na saúde por meio de dados, o filme convida o espectador a vivenciar essas transformações, o que ajuda a entender, na prática, o que a diretora aponta: a emoção como caminho para engajamento. Um princípio central para qualquer estratégia de storytelling de impacto e propósito de marca.
No contexto da sustentabilidade, frequentemente associado a dados técnicos e linguagem especializada, essa abordagem pode funcionar como ponte, aproximando temas complexos da experiência cotidiana.
Em Muito Além do Lucro, esse movimento aparece ao transformar discussões sobre economia e impacto, muitas vezes abstratas, em histórias concretas de pessoas e organizações, aproximando o tema da experiência real.
Ainda assim, permanece a pergunta: até que ponto essa estratégia tem sido incorporada de forma mais ampla pelo audiovisual, ou permanece mais concentrada em determinados tipos de produção?
Narrativa e liderança: reflexo ou construção?
Ao falar sobre os personagens de seus filmes, Mara descreve lideranças que transitam entre diferentes campos — empreendedorismo social, ativismo, empresas — e que operam a partir de propósito e colaboração. Essas trajetórias dialogam com um debate mais amplo sobre modelos de liderança contemporâneos. No entanto, a relação entre cinema e essa transformação não é necessariamente direta.
Como aponta Ricardo Voltolini, lideranças não se transformam por influência de narrativas isoladas, mas por um processo contínuo de revisão de valores e práticas.
O audiovisual pode ampliar a visibilidade e reforçar determinados modelos, mas também nasce de transformações que já estão em curso. Separar essas dimensões é fundamental para evitar a tentação de atribuir ao cinema um papel isolado de transformação.
Sustentabilidade para além do tema
Outro aspecto relevante da entrevista é a ampliação do próprio conceito de sustentabilidade. “Sustentabilidade começa no indivíduo”, afirma Mara Mourão. Uma visão que amplia o conceito tradicional de ESG para incluir saúde, relações e bem-estar como parte da agenda.
Ao incluir dimensões como saúde, relações e bem-estar, essa abordagem desloca o tema de um campo exclusivamente ambiental ou econômico para uma experiência mais cotidiana.
No audiovisual, isso pode se traduzir em narrativas que tratam sustentabilidade não apenas como pauta, mas como lente, atravessando diferentes tipos de história.
Mara também chama atenção para a diversidade crescente de formatos: documentários, séries, conteúdos curtos e produções pensadas para redes sociais. Esse movimento dialoga com mudanças no consumo e na produção audiovisual, ampliando tanto o acesso quanto o número de vozes.
Ao mesmo tempo, abre novas frentes de debate, como o impacto ambiental das próprias tecnologias utilizadas, incluindo a inteligência artificial. Trata-se de um tema ainda em desenvolvimento, mas que tende a ganhar relevância nos próximos anos.
O que ainda precisa ser mais explorado
Apesar dos avanços, a diretora aponta lacunas importantes: histórias que aprofundem o papel das empresas, as relações de trabalho e a lógica da maximização do lucro ainda aparecem de forma limitada.
Seu filme mais recente, Muito Além do Lucro, surge como uma tentativa de contribuir para esse debate, abordando novas economias, externalidades e propósito.
A partir dessa provocação, fica a questão: à medida que essas agendas ganham centralidade no debate público, permanece a questão sobre como o audiovisual irá acompanhá-las.
O cinema como espelho e que, às vezes, provoca
Talvez a leitura mais equilibrada a partir da entrevista seja a de que o cinema segue sendo um espelho do seu tempo. Em alguns contextos, no entanto, ele também pode atuar como provocação, abrindo espaço para novas perguntas, sensibilidades e imaginários.
Para marcas, organizações e lideranças, isso traz uma implicação relevante: acompanhar essas narrativas não é apenas uma questão cultural, mas uma forma de observar mudanças em curso na sociedade.
Mais do que oferecer respostas definitivas, o audiovisual de impacto parece operar, cada vez mais, como um campo de experimentação, onde diferentes formas de narrar, engajar e imaginar futuros convivem e se tensionam. Um território fértil para marcas que se importam pensarem sua própria comunicação de sustentabilidade e propósito.
_Sustentabilidade começa no indivíduo._
Produções de Mara Mourão
Ao longo de sua trajetória, a diretora constrói uma filmografia que dialoga com temas de impacto social:
- Doutores da Alegria (2005)
- Quem se Importa (2012)
- Missões de Vida (2020)
- Muito Além do Lucro (2025)
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Fontes consultadas





