Net Positive, o critério que Andrew Winston propõe às empresas 

Consultor e autor de referência em estratégia sustentável, Andrew Winston defende que empresas prosperam ao resolver – e não ao criar – os problemas do mundo.

“Negócios deveriam lucrar ao resolver os problemas do mundo – não ao criá-los”. A frase, que sintetiza o pensamento de Andrew Winston, não é um slogan otimista, é um diagnóstico. E, mais do que isso, um novo critério para avaliar o que faz sentido no mundo dos negócios hoje.

Ao estudar sua trajetória e suas ideias, fica claro que a sustentabilidade mudou de lugar. De agenda paralela, frequentemente associada à reputação ou à mitigação de riscos, passou a ocupar o centro da estratégia. Não por idealismo, mas por pressão concreta da realidade.

As grandes forças que moldam o nosso tempo – crise climática, escassez de recursos, perda de biodiversidade, desigualdade – já não são pano de fundo. Elas redesenham mercados, pressionam cadeias produtivas e alteram expectativas sociais. Ignorá-las deixou de ser uma escolha neutra. Tornou-se um risco de negócio.

Nesse contexto, sustentabilidade, antes vista como custo, passa a ser uma forma mais inteligente de fazer negócio.

Winston organiza essa mudança de forma mais estruturada no livro Net Positive, escrito em parceria com Paul Polman, ex-CEO da Unilever e uma das lideranças mais influentes na incorporação da sustentabilidade ao coração das decisões empresariais. A colaboração aproxima teoria e prática e amplia uma proposta que não nasce apenas da análise, mas da experiência de quem liderou transformações reais em escala global.

A ideia central do livro é exigente: não basta fazer menos mal. Empresas precisam gerar mais valor para o mundo do que extraem dele.

É daí que emerge uma das perguntas mais desconfortáveis e reveladoras do pensamento de Winston: o mundo está melhor porque essa empresa existe?

A força dessa pergunta mexe com a discussão. Sustentabilidade deixa de ser um tema técnico, restrito a indicadores e relatórios, e passa a operar como critério de relevância. Não se trata apenas de eficiência operacional ou desempenho financeiro, mas do saldo real que uma organização deixa no mundo.

Essa mudança reorganiza a lógica de negócios. Segundo Andrew, o lucro não desaparece nem perde relevância, mas se torna consequência (não objetivo) de um modelo que cria valor para um conjunto mais amplo de stakeholders, e não apenas para acionistas. É uma inflexão relevante em relação ao pensamento que orientou a gestão nas últimas décadas.

A partir daí, outras transformações se encadeiam. A ideia de “externalidades” como algo fora da responsabilidade da empresa perde sustentação. Se há impacto, há responsabilidade, seja na cadeia de fornecedores, no ciclo de vida dos produtos ou nos efeitos indiretos das operações. A fronteira da accountability se expande, e com ela a complexidade das decisões.

Também muda o nível de ambição necessário. Metas incrementais não respondem a problemas sistêmicos. Ao contrário, são os objetivos mais exigentes (aqueles que parecem difíceis de atingir) que tendem a impulsionar inovação e revisão de modelos de negócio.

Nesse cenário, Andrew propõe que a liderança deixe de lado apenas a execução para exigir posicionamento. Decidir com horizonte de longo prazo, sustentar escolhas sob pressão, influenciar agendas públicas e atuar além dos limites da própria empresa tornam-se parte do papel de quem lidera.

O consultor explica que há ainda uma ruptura importante na lógica competitiva. Desafios como clima e desigualdade não se resolvem de forma isolada. Eles exigem colaboração entre empresas, articulação com governos e participação ativa na construção de regras e políticas. A capacidade de operar em sistemas complexos passa a ser tão relevante quanto a eficiência interna.

Outro aspecto central no trabalho de Andrew é a leitura das megatendências. Sustentabilidade, nessa perspectiva, não é uma agenda à parte, mas resultado de transformações mais amplas – ambientais, econômicas e sociais – que já estão redefinindo o funcionamento dos mercados. Empresas que ignoram esse movimento não apenas perdem relevância; ampliam sua exposição a riscos.

Ainda assim, o tom não é alarmista. Andrew trabalha a partir de um otimismo pragmático: o reconhecimento de que os desafios são profundos, combinado à convicção de que empresas têm hoje escala, recursos e capacidade de inovação para contribuir de forma decisiva no seu enfrentamento. A questão central deixa de ser possibilidade e passa a ser escolha.

O principal aprendizado com essa pesquisa vai além do conceito de net positive. Não se trata de tornar empresas menos nocivas. Trata-se de redefinir o que significa ser uma boa empresa em um mundo sob pressão. E, cada vez mais, isso passa por uma inversão profunda: deixar de lucrar apesar dos problemas – para começar a lucrar resolvendo-os. Esse é o convite que deixamos para quem lidera negócios hoje.

Fonte consultada

https://andrewwinston.com/

* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.

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