Fundador da Amana-Key e uma das maiores referências em liderança no Brasil, Oscar Motomura morreu em julho de 2026. Naná Prado revisita seu legado e mostra por que discernimento, ética e compromisso com o bem comum seguem sendo o alicerce de uma liderança capaz de gerar marcas mais humanas, éticas e regenerativas.

Muito antes de palavras como propósito, liderança consciente, transformação cultural ou pensamento sistêmico ocuparem espaço nas estratégias das empresas, Oscar Motomura já convidava executivos a ampliarem sua forma de olhar para si mesmos, para as organizações e para o mundo.
Foi assim que conheci seu trabalho, entre 2006 e 2010. Na época, eu acompanhava muitos de seus conteúdos enquanto trabalhava no Instituto Akatu e colaborava com o antigo Portal Mercado Ético. Mas sua influência foi além do universo da sustentabilidade corporativa. Ela reapareceu na minha formação como professora de yoga e, sobretudo, durante a experiência no Programa Germinar – formação de líderes facilitadores, onde desenvolvimento humano e liderança caminham juntos. Foi ali que compreendi que gestão e consciência não pertencem a mundos diferentes. Hoje tenho clareza que essa descoberta me levou a costurar jornalismo, yoga e facilitação no que ouso chamar de comunicação integrativa.
A recente passagem de Motomura para outro plano nos convida a revisitar esse legado. Não para olhar para trás, mas para reconhecer o quanto suas ideias permanecem atuais.
Embora fosse reconhecido como um dos principais consultores de gestão do país, Oscar Motomura nunca tratou liderança consciente como um conjunto de técnicas. Seu interesse não estava em processos, mas em pessoas inteiras. Incentivava a leitura, aproximava executivos da filosofia, da ciência, das artes e de diferentes tradições de conhecimento. Acreditava que liderar exige ampliar repertório, desenvolver discernimento e cultivar consciência.
_Algumas pessoas atravessam o tempo porque conseguem enxergar o mundo antes dos outros. Oscar Motomura era uma delas._
Em um de seus textos, escreveu que a liderança de que o mundo precisa é formada por pessoas “com apurado senso de discernimento, sempre atentas às macro e micro equações do mundo, operando a partir de um alto nível de consciência”. Não se trata de uma liderança consciente e orientada apenas por resultados, mas por sabedoria.
Essa visão se conecta a outra ideia que considero uma das mais poderosas de seu pensamento: a liderança comprometida com o bem comum. Motomura afirmava que liderar exige transcender diferentes formas de egoísmo — inclusive o “egoísmo coletivo”, que coloca os interesses de uma empresa, de um setor ou de um país acima de tudo. Para ele, ética era justamente isso: a escolha permanente pelo bem comum. Essa ideia de transcender o egoísmo coletivo parece mais urgente hoje, nesse contexto de policrises, do que quando comecei a acessar o trabalho dele.
Conversando com Ricardo Voltolini chegamos a percepção de que Motomura foi um dos responsáveis por aproximar o ambiente empresarial brasileiro de pensadores como Fritjof Capra, cuja visão sistêmica mostrava que pessoas, organizações e natureza fazem parte de uma mesma rede de relações. Décadas depois, quando o Marcas que se Importam fala em regenerar em vez de apenas neutralizar impactos, estamos, sem sempre perceber, caminhando por uma trilha que Motomura já indicava.
No Movimento Marcas que se Importam, falamos frequentemente sobre liderança orientada por valores. Oscar Motomura deixa como legado a lembrança de que esse caminho começa muito antes dos indicadores. Começa na consciência de quem lidera.
E acredito que essa é sua maior contribuição: mostrar que desenvolvimento humano e desenvolvimento dos negócios nunca foram agendas separadas.
* Naná Prado é jornalista, gestora ambiental e professora de Yoga. É a editora do Portal Marcas que se Importam e atua como divulgadora do movimento.





