Karine Oliveira: ensinar é traduzir realidades

Fundadora da Wakanda Educação Empreendedora, ela constrói pontes entre o conhecimento formal e a realidade de quem historicamente teve menos acesso a ele.

Criada no bairro da Federação, em Salvador, cresceu vendo a mãe, líder comunitária, alfabetizar vizinhos e transformar conteúdos complexos em conversas simples, úteis, aplicáveis. O pai, mestre de obras, operava em outra chave – mais emocional – mas igualmente potente. Entre os dois, Karine aprendeu cedo que comunicação não é sobre sofisticação, mas sobre fazer sentido. Um princípio que hoje se conecta diretamente à ideia de comunicação com propósito e liderança consciente.

Antes de dar nome a isso, ela já empreendia. Vendeu coxinha e empada no colégio para pagar o lanche da faculdade e fez do cotidiano um laboratório prático de geração de renda. Mais tarde, como funcionária pública, percorreu o interior da Bahia e consolidou uma percepção que mudaria seu caminho: “Eu entendi que não ia levar tecnologia para o interior. Eu ia trocar. Sempre tinha algo que aquelas pessoas sabiam e eu não”, lembra ela.

A vivência foi aprofundada pela militância no movimento negro e estudantil e pelo contato com a economia solidária, experiências que estruturaram sua visão sobre trabalho, renda e coletividade. Quando entrou em cursos formais de empreendedorismo, o incômodo foi imediato. Não pelo conteúdo, mas pela forma.

“O conteúdo era bom, mas a linguagem afastava. Era como se aquele universo não fosse feito para a maioria das pessoas”, lembra Karine. 

Foi desse desalinhamento que nasceu a Wakanda Educação Empreendedora. Mais do que uma escola de negócios, a iniciativa se estrutura como uma tecnologia social de tradução, capaz de aproximar conceitos como “pitch, mercado ou retorno financeiro” da realidade de quem já empreende, mas permanece à margem do acesso ao conhecimento estruturado.

Mais do que simplificar, a proposta é outra: reconhecer que o conhecimento já existe e construir a partir dele.

Segundo Karine, ao longo de oito anos, a Wakanda já impactou mais de 8.500 pessoas e evoluiu de uma operação individual para uma estrutura mais estratégica, com atuação também junto a grandes empresas e instituições públicas. Um exemplo concreto de como a educação empreendedora pode gerar impacto social em escala. Mas o crescimento trouxe inflexões importantes.

Em 2021, ao ganhar visibilidade nacional, Karine – fundadora e hoje CEO da Wakanda – tomou uma das decisões mais difíceis da sua trajetória: sair da sala de aula para assumir o papel de gestora. “Eu amava dar aula. Era a minha alma estar ali. Mas entendi que precisava formar outras pessoas para que isso crescesse”, conta.

Nem sempre foi um caminho linear. Nos primeiros anos, lidou com erros, dívidas e dúvidas profundas sobre sua própria legitimidade. “Teve um momento em que eu disse que seria minha última aula. E aí os alunos começaram a contar o que tinham aprendido. Foi quando entendi que não era mais só sobre mim”, relembra ela.

Essa virada ajuda a explicar por que Karine se consolida hoje como uma das novas protagonistas de uma agenda que ganha relevância: a de uma liderança comprometida em reduzir distâncias – entre teoria e prática, centro e periferia, discurso e transformação. Um retrato do que hoje se entende por liderança consciente e inclusiva.

Isso se traduz em um modelo de liderança baseado em autonomia, transparência e escuta, mais exigente, mas também mais coerente com o tipo de impacto que busca gerar.

E impacto, para ela, não é narrativa: “Não é difícil comunicar impacto. Difícil é gerar impacto de verdade”. E continua: “Nenhuma tecnologia transforma o mundo se não for democrática”. Uma frase que resume bem o compromisso da Wakanda com a democratização do conhecimento e o empreendedorismo popular.

Confira a entrevista conduzida pela jornalista Naná Prado, para o Marcas que se Importam (MQSI):

Marcas que se Importam: Quando você começou a aprender sobre negócios, o que mais te intrigava: o conteúdo ou a forma como ele era apresentado?

Karine Oliveira: O que mais me intrigava era a forma como o conteúdo era apresentado. O universo do empreendedorismo, especialmente o de startups, foi construído, em grande parte, para empresas grandes e para poucas pessoas acessarem. Existe quase um “dicionário próprio”, uma cultura que pressupõe que todo mundo vai simplesmente se adaptar a ela.

Só que nenhuma tecnologia transforma o mundo se não for democrática. Se a maioria das pessoas não acessa, não usa, não executa, aquilo não muda a realidade de fato.

E o mais curioso é que o conteúdo em si é muito bom. Entender payback, nível de investimento, mercado, indicadores – tudo isso é extremamente importante. O problema é quando isso não é traduzido para uma linguagem que faça sentido na prática das pessoas.

Quando isso não acontece, o efeito é o contrário: afasta. A pessoa olha e pensa “isso não é para mim”, “não tenho uma empresa de tecnologia”, “não preciso saber disso”. E segue tentando do jeito que dá.

Foi daí que veio a minha inquietação: como a gente pode abrasileirar esse conteúdo? Como trazer para a nossa realidade, para as nossas múltiplas formas de falar e entender o mundo?

No Brasil, a gente tem uma riqueza enorme de linguagens, de repertórios – muito disso vindo da nossa herança africana. Então, por que não usar isso a nosso favor? Criar diferentes formas de explicar a mesma coisa, garantindo que o conhecimento chegue e seja, de fato, absorvido.

Porque, no fim, não é sobre simplificar o conteúdo, mas sobre torná-lo acessível. E, para isso, você precisa estar dentro da realidade de quem está aprendendo – não exigir que a pessoa aprenda uma nova linguagem só para conseguir entrar nesse espaço.

MQSI: Teve um momento em que você viu alguém desistindo por causa da linguagem?

Karine: Eu não via exatamente as pessoas desistindo, porque muitas já empreendem por necessidade. O que eu via eram pessoas seguindo, mas sem acessar o conhecimento que poderia fortalecer o negócio.

Muitas vezes, o que elas já fazem é tratado como errado. E não é sobre certo ou errado,  são formas de fazer, algumas mais eficientes que outras.

Quando a abordagem parte da invalidação, em vez do reconhecimento, ela afasta. A linguagem vira um muro invisível. A pessoa sente que aquilo não é para ela.

E aí deixa de usar ferramentas que poderiam trazer mais segurança e estrutura.

MQSI: O que muda, na prática, quando você ensina a partir da realidade da periferia?

Kaarine: Muda tudo. 

Quando você olha para o cotidiano, percebe que esses conceitos já existem. Um vendedor ambulante no ônibus faz um pitch o tempo todo. Ele se apresenta, explica, vende e desce no próximo ponto.

O payback, que parece complexo, é só entender quando o dinheiro vai e volta. Eu chamo de “2V”. Quando você mostra isso, aproxima. O que parecia distante vira algo palpável.

Ensinar a partir da realidade da periferia é isso: reconhecer que o conhecimento já está ali – e, a partir disso, construir novas camadas.

MQSI: A Wakanda cresceu rápido nos últimos anos. Como foi essa transição — de um projeto individual para uma equipe estruturada — e qual foi o momento mais desafiador dessa mudança para você?

Karine: Eu comecei a Wakanda sozinha. Fiquei um tempo tocando tudo — era eu e eu mesma. Em 2019, comecei a montar equipe, ainda bem pequena. Na pandemia, em 2020, a gente cresceu um pouco, mas foi em 2021 que veio o grande salto. Entre 2021 e 2022, chegamos a ter 15 pessoas trabalhando comigo.

Hoje, a gente opera com uma equipe mais enxuta, de oito pessoas, muito por conta do momento da Wakanda, que passou a atender mais estatais e grandes corporações. Então virou um núcleo mais estratégico. Ao longo desses oito anos, já impactamos mais de 8.500 pessoas.

Mas 2021 também foi o ano mais desafiador da minha trajetória.

Foi um ano de muita visibilidade — participei do Shark Tank, saí na capa da Forbes, comecei a vender mais para grandes empresas. Antes, eu vendia um produto por ano; de repente, estava vendendo quatro. E, junto com esse crescimento, veio a decisão mais difícil: sair do operacional e me tornar, de fato, gestora.

Eu amava dar aula. Era a minha alma estar ali na ponta, com os alunos. Mas entendi que o meu lugar, naquele momento, precisava ser outro: no estratégico, no comercial, abrindo caminhos, pensando novos mercados e formando pessoas que pudessem continuar esse trabalho.

Foi difícil justamente por isso — porque envolvia abrir mão de algo que eu amava para que a Wakanda pudesse crescer.

Hoje, é muito potente ver que isso deu certo. Encontrar pessoas que fizeram cursos com outros professores da Wakanda e ouvir que foi transformador mostra que a metodologia se sustenta para além de mim.

Acho que esse é o momento em que você deixa de ser só a executora e passa a construir algo que continua existindo — e crescendo — com outras pessoas.

MQSI: Como você define impacto hoje?

Karine: A gente olha para duas coisas.

A primeira é a financeira: o que mudou na vida da pessoa? Ela saiu do endividamento? Chegou no ponto de equilíbrio? Consegue pagar o próprio salário?

A segunda é a absorção do conteúdo. Não é só aprender — é aplicar. E cada pessoa tem seu tempo.

Já tivemos empreendedoras que só colocaram em prática anos depois. Mas, quando aplicaram, funcionou. Então, impacto é isso: melhoria real de vida e a capacidade de transformar conhecimento em ação.

MQSI: Quando você começou a se reconhecer como líder?

Karine: Demorou. Acho que fui me reconhecer como líder em 2021.

Não foi uma transição fácil. Quando comecei a contratar professores e sair do operacional, eu ainda queria fazer tudo, muitas vezes achava que faria melhor.

A virada veio quando meu irmão entrou como coordenador e organizou o operacional muito melhor do que eu faria. Ali caiu a ficha de que a Wakanda já não era só o meu DNA.

Passei a entender que meu papel era outro: olhar para o futuro e criar condições para a equipe crescer. Foi aí que me reconheci como líder. Desde então, vejo liderança como um processo contínuo de aprendizado.

MQSI: Que tipo de liderança você está construindo hoje?

Karine: Hoje, construo uma liderança mais horizontal, com foco em autonomia.

A gente trabalha com muita conversa, escuta e transparência. A equipe sabe dos números, participa das decisões e ajuda a pensar o negócio.

É um modelo mais desafiador, porque exige abertura, mas fortalece o propósito. As pessoas não só executam, elas questionam, propõem, melhoram processos. É mais exigente, mas faz muito mais sentido para mim.

MQSI: O que você aprendeu liderando pessoas com realidades tão diversas?

Karine: A principal lição é que diversidade dá resultado.

Quando comecei a trabalhar com pessoas que pensam diferente de mim, os resultados melhoraram. Surgem questionamentos, visões novas, ajustes que eu não veria sozinha e isso fortalece o que a gente constrói.

Ao mesmo tempo, não é confortável. Ninguém ensina a liderar assim.

Aprendi que liderar também é sustentar essas conversas e, quando necessário, direcionar com clareza. Nem sempre é consenso, às vezes é decisão.

Mas, no geral, um time diverso, com escuta real, evolui muito mais rápido. Uma lição valiosa sobre diversidade, inclusão e liderança horizontal nas organizações.

MQSI: Pensando na parceria com o Marcas que se Importam, que tipo de transformação você gostaria de ver acontecer na prática?

Karine: Eu gostaria de ver as marcas indo além da venda de produtos e assumindo, de fato, a venda de propósito.

Não é sobre parecer diverso ou falar todas as linguagens, é sobre entender qual legado querem deixar.

Resultado financeiro importa, mas não pode ser só isso. A pergunta precisa ser: qual impacto positivo eu estou gerando?

Porque comunicar impacto é fácil. Difícil é gerar impacto de verdade, questionar processos, envolver a equipe, fazer diferente no dia a dia.

O que eu espero é isso: marcas mais comprometidas com as próximas gerações e menos preocupadas só em parecer relevantes no presente.

MQSI: Que mudanças você quer ver acontecer no Brasil — e qual o papel da Wakanda nisso?

Karine: Estamos diante de um desafio real: o avanço da tecnologia tende a aumentar o desemprego estrutural.

O papel da Wakanda é ajudar a construir caminhos para que mais pessoas empreendam com segurança, porque empreender por necessidade não é romantizado, é duro.

Precisamos fortalecer redes de redistribuição de renda. Quando você consome de pequenos negócios, faz o dinheiro circular por mais mãos e isso muda a economia.

Não é sobre todo mundo ficar milionário. É sobre mais pessoas viverem com dignidade. Uma síntese que conecta empreendedorismo popular, economia solidária e impacto social real.

MQSI: Quando você olha para o futuro, como imagina o seu papel nos próximos anos?

Karine: Quero continuar dando aula e fazendo palestras, que é algo que eu amo. 

Mas, principalmente, quero criar redes de pessoas que queiram democratizar conhecimento. Essas pessoas existem, mas falta conexão.

Quando juntamos diferentes trajetórias e formas de ensinar, o conhecimento deixa de afastar e passa a aproximar.

MQSI: Para quem está começando a empreender hoje, o que você diria?

Karine: Eu diria três coisas.

A primeira: o maior desafio está na sua cabeça. Empreender é escolher o seu difícil.

A segunda: tenha um espaço seguro para ser vulnerável. Você vai precisar de apoio para continuar.

E a terceira: você vai errar – o importante é o que faz com isso e quão rápido tenta de novo.

É isso que constrói o caminho.

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